março 23, 2011

FACEBOOK E AUTO-REPRESENTAÇÃO> Facebook, o novo espelho de narsciso(a)




Assino na edição de abril da revista Mente e Cérebro (Scientific American) o artigo que trata do Facebook, como nova forma de sociabilidade, explicando histórica e socialmente o nosso fascínio pela imagem
Confiram, já está nas bancas em SP e RJ e a partir do dia 25 nos outros estados,
Clique no link para o site da revista com trecho do artigo,

março 09, 2011

BELEZA E PERIGO> Beleza como risco: o caso da jornalista Lara Logan durante conflito no mundo árabe



A agressão a jornalista Lara Logan levantou o debate sobre a inadequação da função de correspondente de guerra ao gênero e aparência _ obscurecendo o fato de que mais de 140 jornalistas homens foram agredidos. Eis o limite social da beleza: o seu risco. Como as mulheres podem experimentar a autonomia laboral e do seu corpo, sem que isso seja um aval de domínio e agressão? Mas, afinal, porque associamos a beleza feminina a um risco iminente? Como essa associação surgiu e porque ela ainda faz sentido nos dias de hoje?

março 01, 2011

MALDADE> "Quero que me ajude a encontrar minha própria maldade"


Foi assim que uma paciente do psiquiatra inglês Donald Winnicott iniciou sua terapia. Ela sabia que todos nós precisamos de uma dose de agressividade (inata a qualquer ser humano) para agir e amadurecer. Uma vida politicamente correta é uma vida moral. E uma vida moral é um artifício, um controle idealizado do desejo, uma castração. Resumindo: uma hipocrisia. Que um dia ou outro cobra seu pedágio, em formas ainda mais violentas e efetivamente destrutivas. “É preciso atentar para o fato de que a fraqueza, o retraimento, a omissão são tão agressivos quanto à manifestação aberta de agressividade. Ser roubado é tão agressivo quanto roubar. O suicídio é fundamentalmente igual ao assassinato” (1958b, p. 355).
É preciso sair do plano moral, das ideias para a ação. A agressividade é a passagem para tomar as rédeas da vida, crescer, amadurecer. “Em sua origem a agressividade é quase sempre sinônimo de atividade” (Winnicott). A passagem da infância – onde nossa identidade se funde a de nossos pais e ao ambiente _ para a vida adulta, que exige a destruição desses seres e dessa vida ideal e irreal que criamos. Um corte necessário para constituirmos um eu separado. De “objetos-subjetivos” (simbiotizados) para “objetos objetivamente percebidos”, que tem existência própria. Ao separá-los de nós_ simultaneamente_ ganhamos vida. Eu e os meus pais. Eu e a vida-real, sem ingenuidade.
“Não podemos continuar a viver num mundo que é feito apenas de nossas projeções” (Winnicott). Viver em um mundo de fadas e finais felizes. É preciso estar na vida em comum para viver uma vida. E essa “vida real” está situada “fora da área de nosso controle supostamente onipotente” de um mundo que podemos criar em nossa imaginação, em nossos sonhos sempre futuros...
Para amadurecer é preciso destruir nosso mundo ideal, onde nos refugiamos quando nos sentimos fragilizados. Destruir quem idealizamos como seres perfeitos para torná-los, enfim, o que são: humanos. “Alguém que pode ser temido, odiado, amado, respeitado" (1986 d, p.104).
Pois, para que a relação de amor se realize é preciso ter um “eu” e um “alguém” para se amar, como seres em si. Separados. Mas, ligados por um desejo que os aproxima livremente.
O amadurecimento é, portanto, um processo que segue os passos: destruição das projeções subjetivas> externalização, ou separação eu - outro> uso do objeto separado, ação, realização.
Essa consciência de si gera responsabilidade e preocupação em relação a sua ação no mundo, na medida em que percebemos que podemos mudar as coisas e as pessoas a nossa volta.
Mas, não podemos tomar a destruição como algo em si. Isso seria o niilismo, este seria o final do Cisne Negro. Não que defenda ingenuamente um final feliz. Não é isso. Mas, se não há reparação, reconstrução não nos é dado o direito de viver o nosso lado destrutivo, sem que ele nos consuma completamente. Deixar a destruição operar é tão nocivo como adotar uma vida completamente moral e politicamente correta. No fundo os cisnes brancos e negros padecem da mesma pulsão de morte. São iguais.
A reparação é um ambiente que nos é dado para arriscarmos, para sermos agressivos, mas que possamos ter a esperança de juntar depois os cacos do que quebramos em uma nova forma. Restaurada. Um espaço capaz de reconhecer e aceitar a agressividade, para que ela, enfim, integre nossa personalidade sem uma censura moral. Para que possamos vivenciá-la socialmente sem perdurar na culpa por mais tempo que o necessário. Essa reparação “será o elemento central em nossa capacidade de relacionar-se com outros, de defender nosso território, de brincar e de trabalhar. Se não for integrada, a agressividade terá que ser escondida (timidez, autocontrole) ou cindida, ou ainda poderá redundar em comportamento anti-social, violência ou compulsão à destruição” (Winnicott).
A reparação não é um final feliz, mas a possibilidade mesma de viver o seu lado destrutivo – sem que ele o destrua. Uma agressividade enquanto voracidade pela vida, unindo potencialmente agressão e amor.

> Para quem quiser ler mais sobre Winnicott recomendo o texto de Elsa Oliveira Dias, disponível pelo link

fevereiro 24, 2011

DESPERDIÇAR O TEMPO> O tempo passou na janela...


Dedico esta postagem a duas grandes amigas e a mim.
Nós três vivemos um momento muito parecido. Sei que é estranho dizer “a mim”, mas às vezes escrevo para ver se escuto também...
Confesso que não sou tão coerente, muito menos consigo honrar tudo o que penso.
Mas, voltando... o que está acontecendo, simultaneamente, nessas três histórias? A consciência de um vazio. Ele se dá por três razões distintas (ás vezes interligadas): limites físicos, limites profissionais, limites afetivos.
O vazio de perceber, um dia, que a vida transcorre sem a sua necessidade. Que as pessoas podem ser felizes ao lado de outras pessoas. Que no trabalho há colegas tão queridos como você e que se morrermos _ chorarão_, mas todos seguirão de alguma forma depois que o sofrimento passar.
Paramos para ver a banda passar pela nossa janela.
Nesses tempos distintos e tragicamente entrelaçados:
Vemos pessoas felizes, saudáveis, trabalhando e tendo sucesso, amando e sendo amadas.
Mas, simultaneamente, temos a sensação de estar e de não estar ali,
Do outro lado da janela,
Isolados, desolados ; imobilizados.
Acontece algo cíclico: sabemos que temos de agir, mas não temos mais energias para agir e quanto mais tomamos consciência da nossa responsabilidade nesse processo, menos fazemos para mudá-lo.
A vida vai ficando distante, como a banda... e sabemos que se não estamos na banda, não estamos na vida...
Uma pequena morte, melhor: um suicídio.
Autodestrutivo.
Deixamos transcorrer contra nós o tempo. Sabendo que ele está nessa posição: contra. E, essa consciência, melhor, essa conivência é perversa. Há um deleite em assistirmos a nossa derrocada, sem agir, sem mover-se da cadeira. Não há forças para isso. Sabemos aonde chegará processo e deixamos transcorrer a nossa destruição. Uma vingança contra uma noção diminuída do que nos tornamos. Merecemos o castigo. Nos castigamos: por não termos nos superado; por não sermos melhores do que somos; por não merecermos o amor alheio.
Querem um final consolador? Não, não o terão (não agora). Há certos vazios, em certos momentos da vida, que são constitutivos do que somos...

fevereiro 22, 2011

SEM-LUGAR> Os sem-lugar


Só quem abandona seu lugar pode saber das estreitezas dele,
Saber o quanto os hábitos locais e suas crenças são responsáveis por emperrar seu crescimento,
Somos acometidos por uma lucidez de quem olha de fora e em relação a outros lugares e pessoas,
Mas, simultaneamente nós, como “estrangeiros-locais”, somos aqueles que podem fazer com que os que ficaram vejam as belezas e singularidades que também só a comparação com outros lugares pode oferecer,
Hoje sei: comparar é o único caminho para saber,
Um saber que cobra também seu pedágio, pois
Sair do nosso lugar nos torna sem-lugar (parafraseando os não-lugares de Marc-Augé).
A volta nos parece, desde então, estreita e acolhedora.
Familiar nos lugares e incômoda nos hábitos.
As pessoas nos reconhecem, mas nos sentimos outros...
Como uma foto em preto e branco com uma legenda que nos identifique, sem saber das cores que adquirimos no caminho
Essa lucidez é uma avaliação que ressignifica não só o local, mas a nossa própria condição.
Uma condição meio boa, meio ruim
De liberdade e de desassossego,
De lucidez mental e solidão espacial,
Eis o risco de sair: crescer e ser sem-lugar.
Eis o risco de ficar: parar e se contentar.

janeiro 31, 2011

HUMILDADE> A humildade é um entrave


A humildade nunca me convenceu. Há uma falsidade que se esconde neste tão propagando ato “virtuoso”. Nesse esforço de nos diminuirmos, de não nos acharmos tão bons, de tentarmos nos convencer de que somos menos do que somos... Há por trás dessa “educação da humildade” uma herança cristã que naturalizou o sentimento de conformidade e revolta. Ela nos ensina que os pobres e os humildes são virtuosos e que merecem nossa compaixão e nos fez ver, contrariamente, que os ricos e bem sucedidos merecem nossa desconfiança e rancor.
Uma habilidosa maneira de nos conformar com nossa infelicidade. De nos mantermos passivos diante do nosso infortúnio. Aceitá-lo como uma virtude. O protestantismo, de alguma forma, foi uma reação a isso, uma tentativa de justificar a riqueza de uma nova classe emergente, a burguesia capitalista, como bem o descreveu Weber. Para os reformadores dos princípios cristãos ser rico era um sinal de ser o escolhido por Deus, invertendo a lógica cristã e conferindo, assim, legitimidade a paz para a consciência burguesa. Porque para ser feliz e estar de bem com as suas conquistas é preciso, sim, da aprovação dos que estão a nossa volta. Essa máxima “não me importo com que os outros vão pensar” deve valer apenas para monges budistas confinados em mosteiros. Do contrário, todos nós, sem exceção, desejamos e precisamos de um certo apoio dos que nos cercam. Caso esse apoio não se dê no seio da família, como acontece com a maioria dos homossexuais, por exemplo, seria a busca de grupos de pessoas afins e locais em que a homossexualidade é aceita. Sempre buscamos uma zona de aceitação e ela é necessária para o nosso sentido de valor pessoal.
Mas, voltando a humildade, ela é uma castração de nossas forças. É um esforço contra-produtivo de minarmos nossa energia criativa. Os homens e mulheres que fizeram a diferença na História, que criaram, observem, tinham um quê de arrogância. De um “arrogar-se” um poder, de acreditar em sua potência, em seu sonho. A sua falta de modéstia foi a mola propulsora para tornar o impossível, possível.
No entanto, recair em uma defesa da arrogância me parece igualmente perigoso. Confesso que o desconforto é com a palavra e seu sentido social tão arraigado, difícil de ser “transmutado” dos valores a ela associados _ como bem o sabia Nietzsche (vítima que foi da incompreensão de seu esforço de dar um sentido novo a ideias desgastadas). É nesse sentido que ele afirmava que “ser sincero, mesmo no mal, vale mais que perder-se a si próprio na moralidade da tradição” (Gaia Ciência, p.109). É preciso ver no que se chamou de bem sempre um certo mal e no que se chamou mal um certo bem, sem usar para esse julgamento uma gramática conhecida.
Assim, o que defendo não é um acreditar em si que implique a humilhação alheia (tal como entendemos vulgarmente a arrogância). Não é preciso, para se achar bom, ter de diminuir o outro. Todos somos incomparáveis e isso elimina o sentido e a necessidade da arrogância entendida como denegrir os demais.
Mas, insisto: não se esforcem para diminuir-se. Esforcem-se em elevar-se. Em superar-se, com ética, com amor a si e as suas realizações. Usem todo o potencial que há em si para criar e assim contribuir para o mundo. No fim, uma dose de “arrogância” como criação é a maior prova de generosidade com a humanidade.
“Pois é amando que o mortal dá o que tem de melhor” (Nietzsche, Humano, demasiado humano, p. 184)

janeiro 19, 2011

SOLIDARIEDADE E ALEGRIA > A falta de solidariedade na alegria


Porque as pessoas são solidárias apenas durante as tragédias? Porque é tão difícil compartilhar também a alegria e as conquistas do outro? Segundo uma personagem do livro "Inveja" do jornalista Zuenir Ventura, Vera Loyola: "O verdadeiro amigo não é o que é solidário na desgraça, mas o que suporta o seu sucesso".
Não quero que pensem que afirmação vai contra a generosidade na tragédia. Entendo, inclusive, que esta solidariedade é o fundamento da reconstrução material e moral não só das famílias que perdem tudo em tragédias naturais, mas do próprio país.
O que não elimina a pergunta: Porque a solidariedade na alegria é tão rara? Porque somos acometidos por essa "tristeza de ver o outro feliz" (como bem a definiu São Francisco de Assis)
A experiência, infelizmente, confirma a suspeita. Eu, por exemplo, perdi mais amigos no momento que me estabilizei do que quando me encontrava em situações difíceis. E, o pior, os amigos se afastam sem dizer o por que. Outro mal desse pecado: o silêncio, a sua não confissão. Quem pode assumir que está triste porque o amigo está feliz? Melhor mesmo é sair de fininho, em silêncio. Nelson Rodrigues dizia que “há coisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem ao psicanalista e nem ao médium depois de morto”. A inveja deve ser o nosso primeiro segredo.
Assistia recentemente a uma partida de tênis pela TV. O número 1 jogando contra um tenista que acabava de machucar o joelho. O campeão não recebia nenhum aplauso, enquanto um ponto do jogador lastimado era motivo de palmas e gritos da platéia. Pensei: como deve ser solitário ser o número um. Ele fez tanto para chegar ali, mas agora não merece a solidariedade em seu sucesso. Por quê? Porque ele é o número um! Porque o outro, pobre coitado, está ali se matando na quadra para fazer um ponto.
Será que Oscar Wilde tinha razão ao afirmar que “a cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre”.
O que preferir: A mediocridade e aceitação do outro ou o sucesso e a solidão? A companhia ou sua realização pessoal?
“Meu irmão! Queres caminhar para a solidão? Queres procurar o caminho que conduz a ti mesmo? Detém-te um pouco e escuta-me. ‘Aquele que procura facilmente se perde a si mesmo. Todo partir para a solidão é culpa – assim fala o rebanho. E tu fizeste parte do rebanho durante muito tempo. A voz do rebanho continuará ressoando dentro de ti. Queres, porém, percorrer o caminho de tua tribulação, que é o caminho para ti mesmo? Mostra-me, então, teu direito e tua força para fazê-lo’” – Nietzsche, Assim falou Zaratustra

dezembro 22, 2010

VALOR PRÓPRIO > Quem pode medir o nosso valor? Garantir ou não o nosso sucesso?


"A Onda" de Camille Claudel: três mulheres diante da força da onda, entre a possibilidade de superá-la ou sucumbir a sua violência


O que define o nosso valor? Como poderíamos saber se realmente somos bons naquilo que fazemos?
A nossa auto-avaliação é sempre suspeitosa. Ou nos achamos muito bons ou nos sentimos um fracasso total. E, no fundo, sabemos que nossa auto-avaliação é sempre “fantasiosa” e de nada nos vale se não passamos em um teste, se não aceitam o nosso trabalho, se perdemos a chance. A avaliação do outro pode nos impedir, parcialmente, de seguir a diante.
O outro é nossa referência, a mais cruel em alguns momentos. Pois o "não", o "você não", define, para nós, o nosso valor, ou a falta dele. A nossa invisibilidade, a chance negada de mostrar o que poderíamos vir a ser é a mais cruel interrupção da nossa potência. Precisamos de chances e, em alguns momentos, de que as pessoas apostem em nós.
Mas, se estou por um lado afirmando que o outro é o nosso espelho mais “real”, por outro lado gostaria de denunciar o perigo dessa referência de nosso próprio valor.
Há poucos dias me deparei com a história de Joanne Rowling, autora da ficção lida por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, o que a tornou a mulher mais rica da história da literatura com seu Harry Potter. Mas, esse é o final feliz de uma obra que foi rejeitada oito vezes, isso, 8 vezes por editoras. Nessa oitava negativa ela poderia ter pensado: essa história é fraca, um lixo e, o pior, poderia ter parado de escrever se sentindo uma escritora medíocre, ter desistido. Mas, ela não o fez. Tentou a nona vez: conseguiu. O resto da história nós sabemos, o êxito mundial. Esse passo adiante onde todos teriam desistido foi o que fez a diferença na vida dela e dos leitores que, sim, acreditaram nessa história e fizeram dela um sucesso. Eis o perigo: a avaliação de um pequeno grupo pode nos impedir de ter a oportunidade de ganhar visibilidade e com ela a correta avaliação do seu valor pelo público em geral. Por isso, quero afirmar: se você acredita no que faz, insista.
Não quero que essa frase recaia em um otimismo ingênuo e fácil. Porque sei que, entre esse passo adiante e a frustração que o antecede, há o silêncio no meio. A angústia e a terrível sensação de que estamos condenados a nossa própria mediocridade. Perdemos a força, a vontade, indiferentes ao frio e ao calor, a beleza ou a feiúra, o sem sentido, o cinismo, o niilismo fatigado. Entre o desânimo e o ânimo que faz esse passo existir, há a confusão de sentimentos e a revolta com os nossos limites. Há a sensação de que o outro é muito superior a nós, inalcançável. Há a cobrança de porque não fiz isso, não falei aquilo, estudei aquela outra coisa? Há sempre entre a perda de seu valor e esse passo um enorme abismo onde nos metemos. E, de onde é muito difícil arrumar energias para sair. Como essa energia surge? Não sei, mas ela surge como uma pequena chama de fé “sem religião” que consegue aquecer nossa alma por inteiro. Parte de uma pequena ação que nos “realma” aos poucos e definitivamente. E nos faz ter a paciência de catar os retalhos que sobraram de nós, de costurar esse remendo que nos tornamos depois de perdemos nosso valor próprio.
É preciso, contra todas as condições adversas, encontrar uma reconciliação consigo que nos reabilita para que possamos nos amar, mesmo que um pouquinho, eis a condição necessária para dar esse passo além, onde todos parariam.

novembro 27, 2010

AMOR X ADMIRAÇÃO > O Amor não precisa da Admiração



O amor é em si mesmo. Não precisa de provas e de desempenhos para nascer. Ele simplesmente está. É intruso, íntimo, próximo dos nossos defeitos. Mas, indiferente as nossas sombras ele nos ilumina, por essa mesma razão. Ele acalma os nossos fantasmas porque os conhece, os ama! O amor ama. Integralmente. Totalmente, porque sabe do nosso pior. No amor a incoerência não é loucura. O vazio existe e é acolhido. Há sempre mais uma chance na generosidade de que é feita a sua matéria. Ele sabe que erramos, mesmo quando não queríamos errar. E, ao tornar o nosso pior conhecido e amado ele deixa de ser o pior aos nossos olhos. Passamos a nos amar igualmente. Grandes em nossa pequenez.
Admiração é o mirar a distância. Ela não nos conhece em nossos fundos, apenas em nossa fachada. Ela não sonda os porões, mas os salões floridos em dias de festa. A admiração tem hora marcada. É feita de desempenho e controle da encenação. Ela produz ídolos e espera deles a coerência dos discursos e a plasticidade na imagem. Atores que encenam o seu sucesso à distância, no palco. Para ser admirado há de se manter a distância... do que nos é humano, nesse nosso insano desejo de sermos deuses, perfeitos. O controle e o belo nos orientam, nos atormentam porque nós sabemos da "fraude", do déficit entre o que aparentamos ser e do que somos. Mas, se julgamos que sendo admirados seremos amados... ledo engano! O amor não está na perfeição: estética, ética ou laboral. O amor tem um quê de imperfeito, de desalinho...
Esse desalinho do amor... é libertador. Nos deixa ser. Afrouxa as expectativas que impomos a nós mesmos. Nos deixa errar. Falhar. E nos ama!? Nos ama simplesmente, sem razão, sem um sentido que caiba no sentido. Esse calor humano que não depende das luzes dos holofotes. Que não afasta, mas aproxima. Que não pede, mas é abundante. Que nada quer e tudo nos oferece.
Esse desalinho do amor... é libertador

novembro 24, 2010

V Encontro dos Pós-graduandos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP


Apresento no V - EPOG ( V Encontro dos Pós-graduandos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, parte dos resultados da minha pesquisa. Irei tratar da "ESTEREOTIPIA E INDIVIDUALIDADE NAS IMAGENS FEMININAS: DA CONFORMIDADE COM AS IMAGENS TRADICIONAIS À AUTORIA NAS REDES INTERATIVAS"

O trabalho será apresentado na mesa "A representação de si e novas subjetividades" e conta ainda com:
>Leonardo de Barros Sasaki-\"A LENTÍSSIMA DECIFRAÇÃO DO MEDO E DOS SINAIS\": O MEDO EM AL BERTO
>Pedro Felipe de Andrade Mancini- O MITO DA \"SEGUNDA VIDA\": LIBERDADE E INDIVIDUALIDADE NO USO DE SECOND LIFE
>Stella Christina Schrijnemaekers- CAMADAS POPULARES E INDIVIDUALIZAÇÃO: UMA JUNÇÃO POSSÍVEL

O evento: dia 25/11 na USP na FFLCH, sala 111 de 10h às 13h

outubro 23, 2010

JORNALISMO CULTURAL> Palestra: "Desafios do Jornalismo Cultural", Universidade Mackenzie, SP


Paulo-Brusky, Bienal 2010

Quais são os desafios atuais do Jornalismo Cultural _ quando a própria crise e transformação dos conceitos de arte e de cultura forçam, simultaneamente, a revisão do lugar e da função do jornalismo cultural. Esse foi o tema da palestra que ministrei para os alunos de jornalismo da Universidade Mackenzie, durante o “V Encontro de Comunicação e Letras”, no dia 20 de out. 2010. Tal palestra realizou-se através do convite de uma professora da instituição que passei a admirar muito pelo trabalho e pela pessoa que é, no sentido dos gestos de que é capaz: Cicélia Pincer.
Dentre os desafios do JN Cultural selecionei cinco:
1) Equilibrar a informação-serviço (agenda) com reflexividade contidas nos gêneros: crítica, crônica e resenha,
2) Entender a cultura como ação cultural, como experiência e interação (jogo) e não mais como produtos e objetos culturais ou com os artista isoladamente. Não é o papel do jornalista qualificar, gostar ou não das expressões culturais, mas compreender o jogo social que aciona essas expressões culturais, sujeitos e o contexto social. A ideia é compreender qual o sentido daquela expressão para aqueles sujeitos, inseridos naquele contexto? Assim, tanto o funck como a MPB podem ser pensadas dentro do jogo da cultura.
3) Tratar com seriedade os produtos da I.C (novelas, reality-shows, programas de auditório e etc) e as novas formas estéticas (moda, culinária e design). No país, as novelas, por exemplo, não merecem uma análise especializada, nem são alvo de uma crítica séria, confinando o seu tratamento a seção de fofocas. Mesmo que seja o gênero dramatúrgico que mais influi na cultura do país, promovendo debates e até mudando leis ou as criando, como no caso do Estatuto do Idoso, onde o maltrato a um casal de idosos em uma novela acionou a discussão no Congresso,
4) Ser simples, sem ser simplório (máxima de Tobias Peucer “que todos entendam e que os eruditos respeitem”); evitar textos herméticos (máxima Nietzsche “buraco raso esconde-se com águas escuras” (AFZ)
Esta palestra na Universidade Mackenzie foi um momento duplamente gratificante para mim. Primeiro por debater um assunto que me apaixona: o jornalismo. A narrativa mais complexa e mais simples que há. Complexa, porque transita em todos os universos do fazer e do pensar. Simples, porque tem de traduzir com a máxima simplicidade, comunicabilidade e atratividade a densidade do mundo. Surgem para isso personagens que corporificam os números das pesquisas, comparações que tornam inteligível o assunto, gráficos e imagens que ilustram e informam. Eis a mais bela profissão do mundo também para os jornalistas, como bem observou Gabriel Garcia Marques. Pois, dela usufruimos de toda a diversidade de pessoas e fatos. Os jornalistas ganham os movimentos da vida durante a cobertura, pulsam com ela.
A segunda razão da minha satisfação com a palestra foi a do reencontro com os alunos, da sala de aula, da troca. Desde que me formei, em 2001, nunca deixei de dar aulas. Cheguei até a dar aulas para colegas que haviam sido reprovados e me reencontraram já como professora (na ocasião substituí a professora de jornalismo econômico, Eleonora Bastos, a quem devo, com todo meu carinho e admiração, a primeira oportunidade de lecionar. Agora meu carinho dedica-se também ao ato generoso de coleguismo e se ouso dizer, de amizade, da professora Cicélia Pincer, que é, com toda razão, admirada e querida pelos alunos da Universidade Mackenzie). Desde então, esta minha vocação encontrou oportunidades de se expressar. Nunca parei de dar aula, passei em todos os concursos em que me testaram lecionando e tive dos meus alunos diversas provas de reconhecimento do meu trabalho, destaco a da primeira turma de jornalismo formada em 2005 da extinta Fadom, hoje Pitágoras, em que colocaram o nome da turma de “turma Isabelle Anchieta”, a placa comemorativa permanece na instituição.
Assim, não só essa alegria, mas muitas outras vividas com meus alunos fizeram da sala de aula o centro da minha vida, que me confere utilidade e valor. A aula está em meu DNA, é o espaço onde minha alma se reanima, ganha forças, cria. Meus textos, são o resultado das minhas aulas, nascem delas.
E, pela primeira vez, com minha mudança para SP em razão do doutorado na USP tive de deixar de lecionar. Imaginei, com ingenuidade, que o doutorado compensaria o que sentia dando aulas, que seria bom voltar a ser aluna. Mas, apesar de realmente viver hoje uma experiência de um conhecimento aprofundado, nada substitui o fato de ser professora.
Por isso, voltar a sala de aula só confirmou minha vocação, só aumentou a saudade do que eu sou, do que eu posso voltar a ser...
Para ler sobre:

setembro 29, 2010

GILLES LIPOVETSKY > Alguém que se importa e que importa


Gilles Lipovetsky e Isabelle Anchieta
A vida tem mesmo lá suas geneosidades. E elas não sem propósito chegam por meio de uma pessoa. Alguém que se importa com você, com os rumos da sua vida, que pensa saídas para seus impasses. E que descobre, nas singularidades do seu desejo; as singularidades dessas saídas. Elas nem sempre são convencionais e não podem ser adquiridas em um livro de auto-ajuda na livraria da esquina, nem pagas nas consultas psiquiátricas, pois dependem de uma escuta atenta, de doação e de um sentido real de amizade. Esse amor fértil. Como se a terra que nos contém fosse removida, explorada por seu movimento, potencializando as propriedades adormecidas no solo. Por isso, é importante que alguém toque essa terra, a remova, a renove. Acredite em seu potencial e assim te devolva a vontade de mais....
Durante a semana que passei com Gilles Lipovetsky pude conhecer com mais intensidade o que é realmente ter alguém que se importa. Ao contrário de falar de sua obra, de suas palestras, projetos futuros, ele queria falar da minha tese, me indicar um livro, sentar e estudar. Me apresentar pessoas. Ou quando era momento de relaxar: fumar um cigarro no terraço, escutar bossa nova e falar da vida. Preocupado em me “orientar” de um modo global. Uma amizade desinteressada, no sentido negativo, mas interessada no sentido da troca humana, da relação (há ainda de se enfatizar isso, infelizmente, quando a amizade envolve um homem e uma mulher).
Ele sempre me diz: Isabelle vc é uma intelectual, tem vontade de conhecer, curiosidade, entusiasmo pelas ideias e está acima de tudo engajada em ter seu próprio caminho na academia. Você não será uma repetidora ou "discípula' de ninguém, porque quer criar. Nem todos os que estão na academia são assim, ele me garante. Brinca que não sou uma “mulher-Daslú” (que se satisfaz com a moda e a beleza), rs, nem vou me contentar com amizades tradicionais (como com algumas mulheres que tem filhos e que só sabem falar de crianças). Eu, realmente, quero mais das pessoas. Ele soube identificar isso em mim sem me censurar. Ao contrário, valorizando essa minha característica, este caminho mais difícil, solitário. Como é bom ter o apoio de alguém da envergadura dele para assumir plenamente minhas escolhas. Para saber e defender que minha trajetória pede a realização de uma obra.
A presença dele me deu também a clareza de que a natureza da felicidade é o outro. Do quanto é importante construir relações autênticas. Em suas palestras, quando as pessoas perguntam se o consumo pode nos dar felicidade, Gilles usa a definição do Rousseau. Segundo o suíço somos incompletos e é o outro que nos oferece as razões para vivermos as grandes dores e alegrias que experimentamos na vida. Para isso, basta lembrarmos de uma perda de alguém importante, ou um nascimento; um encontro amoroso e uma separação; um bar com amigos e o desencontro.... Por isso, a felicidade não está sob nosso domínio, não pode ser comprada em um shopping (mesmo que esse prazer seja legítimo). O inferno e o céu são os outros, nisso Sartre e Rousseau têm razão. E, por não sabemos os caminhos do outro, na medida que sempre nos escapam, a felicidade é um estado imprevisível, instável, frágil, mas intenso, humano.
A felicidade também está em ter um propósito. O meu, como sabem, está atrelado a minha pesquisa, o de tentar contribuir para a emancipação feminina, não mais por uma via feminista, mas humanista pensando, necessariamente, a relação entre homens e mulheres e entre mulheres.
Tenho consciência que fui pesquisar para entender as razões sociológicas desta fragilidade na relação entre nós e para que, quem sabe, possa contribuir com outras mulheres e homens. Ao fim, cheguei a conclusão: a da urgência na mudança da postura feminina sob pena de nos furtar a estabelecer relações verdadeiras e férteis como essa que experimentei. Nós jogamos fora a oportunidade humana da interação que poderia nos unir.
A busca obsessiva pela beleza (que cria um sistema cruel: egoísmo-inveja-frustração), pelo marido e a falta de profissionalismo são empecilhos a relações saudáveis entre mulheres.
>>Quando publicar o trabalho completo aviso , caso queiram ler...

agosto 14, 2010

OPORTUNIDADES> De repente acontece o tempo se mostrando, (...) e você começa a existir (Adélia Prado)


Eis que chega a oportunidade. Um teste para o qual fomos preparados durante o curso da vida. O teste acontece. Agora: a espera. Acredito que todos nós já passamos por isso. Um vestibular. Um teste para um emprego. A mudança de cidade. A espera de um telefonema...
Esse hiato. O intervalo, em que temos a impressão que a vida parou nesse ponto. Congelada: entre o sonho e a desilusão, oscilamos no terreno do nosso imaginário. Construímos e desfazemos o caminho. E, sem certezas, nos exaurimos no movimento circular, sem saída, dos nossos pensamentos, já cansados de ficcionalizar algo que nos escapa.
Estou vivendo isso. Aguardo uma resposta e confesso: este pode ser o mais ambicioso teste por que já passei. Desejei esse posto, sabendo que para ele deveria me preparar e criar a oportunidade. Por isso, eu e a vida fomos nos colocando pequenos testes, de várias naturezas, mas que objetivavam (conscientemente ou não) o ponto de maturação para essa oportunidade. Aconteceu. No dia do teste estava segura, fiz o que tinha de ser feito, me sentia pronta e entusiasmada, dois sinais de que era mesmo o momento dele. Agora; aguardo pela resposta que pode confirmar e iluminar toda a minha trajetória, as minhas escolhas.
Quando era adolescente lembro-me que sempre tinha um sonho, o mesmo. A minha mãe chegou a ficar preocupada com as repetições. Nele eu ficava sempre diante de dois caminhos em uma madrugada. Um asfaltado, sem ninguém, os postes de luz estavam acesos e havia pequenas casas de janelas fechadas, todos dormiam. O outro: uma mata fechada, escura. E: sempre, sempre, escolhia a mata. Na caminhada sentia os pés descalços sendo machucados pelos espinhos, o escuro, cada vez mais... Aterrorizante. Quando acordava sempre me cobrava por essa escolha, que julgava errada.
Engraçado lembrar disso, neste exato momento..., pois a minha vida confirmou o meu sonho e o ressignificou. Ao invés da profissão mais lucrativa (o Direito) escolhi a que me apaixonava: o Jornalismo. Ao invés do sucesso imediato que meu posto na TV me dava, escolhi uma formação cultural de médio, longo prazo – ingressei no mestrado e agora curso meu doutorado. Ao invés de receber favorecimentos, prefiro ser testada. Gosto de entrar pela porta da frente, do contrário; não entro. Sempre fui clara e gosto que assim o sejam comigo (apesar da desonestidade corrente, da qual fui vítima algumas vezes). Não sou ingênua a ponto de negar que a vida é feita de uma certa dose de "política" (no mal sentido), mas infelizmente (ou felizmente) não consigo mesmo compactuar com atitudes pouco éticas e desrespeitosas com os outros. Prefiro esperar uma nova oportunidade, mais digna. E, sempre, sempre, aliei a preparação com o prazer e entusiasmo de fazer o que acreditava. Deu certo, tem dado...
Um dia, em solidão, um pouco cansada de não ver os resultados aparecerem Nietzsche me salvou com a frase: “quem pega o atalho, perde o caminho”. Nisso entendi que só há um caminho que nos mobiliza, sair dele, querer os resultados antes, é perder-se, é não ter tido a perseverança de se preparar para o seu grande teste: que virá. Chegou para mim.
Aprendi, que a vida não é feita de descansos, é feita de luta. Uma luta que se traduz nessa infinita caminhada, desse nunca chegar. Sísifo. Por isso, é preciso ver no caminho o sentido da vida, porque não existe uma chegada, um fim.
Mas, paradoxalmente é preciso buscar, atravessar. Isso é o que nos preenche dos mais sublimes sentimentos e contradições. É nesse lugar do trapézio, nesse meio entre o céu e a terra, onde se encontra o sentido da vida. Esta aposta em atravessar a corda bamba entre os seus riscos sempre presentes de mover-se rumo ao fracasso ou ao sucesso. Nesse ponto, lembrei-me de dois trapezistas. Um de Kafka e outro de Nietzsche. Eles traduzem duas posturas que podemos tomar diante da consciência da falta de finalidade da vida. Um: a angustia niilista. O outro: a aposta na vida, no risco que ela implica, mesmo que sem uma finalidade acabada, eis o seu significado mais profundo...
Por Kafka...
Um trapezista se dá conta, subitamente, de que sua vida está por um triz: ´Viver assim, com uma só barra entre as mãos... É vida, isto?´. A existência de repente lhe parece estreita demais. O trapezista de Kafka, na sua exclamação apavorada tem a percepção vertiginosa que estamos por um fio, a suspeita crescente que esse pouco talvez não bastasse para prosseguir. Ao lado da certeza esvaída, a vida depauperada, o abismo escancarado, a quebra irreversível no fio do tempo e no contorno da alma.

Por Nietzsche... (em um diálogo entre o trapezista, que acaba de cair da corda, e Zaratustra)
BAILARINO: Há tempo eu sabia que o diabo me havia de derrubar.
ZARATUSTRA: Amigo – respondeu – palavra de honra que tudo que falas não existe, não há demônio, nem inferno. A tua alma ainda há de morrer mais depressa que o teu corpo; nada temas.
BAILARINO: Se dizes a verdade – respondeu - nada perco ao perder a vida. Não passo de uma besta que foi ensinada a dançar a poder de pancadas e de fome
ZARATUSTRA: Não fizestes do perigo o teu ofício, coisa que não é para se desprezar.
(NIETZSCHE, AFZ p.30, 2006)


julho 29, 2010

CRIANÇA X ADULTO > Não quero voltar a ser criança


Desse saudosismo, não compartilho. Nunca quis voltar a ser criança. Ao contrário, quando criança queria crescer e estava certa, ser adulta é a melhor experiência que a vida nos oferece. Pois, se ser criança é: não assumir a sua vida integralmente. Não poder andar sozinha. Não ser independente. Não poder sair de casa, sem avisar aonde vai. Não poder escolher seus amigos. Pensar só em si e em seus desejos imediatos, pouco se importando para os outros. Falar e fazer brincadeiras idiotas, sem sentido, sem finalidade. Não ter um trabalho que se ame, na busca obstinada por um objetivo maior, para si e para os outros.... Desculpem-me os saudosos. Não quero voltar a ser criança, nem tenho paciência para criancices de adultos e de crianças. Ser adulto é a forma mais aproximada de ser você mesmo. De assumir erros e usufruir dos seus acertos, das suas apostas. É o momento da vida onde mais nos aproximamos da liberdade. Quando vc começa a escolher suas próprias roupas (mesmo que dentro do leque que a moda nos oferece). A sua carreira e seu carro. Sua casa e, especialmente, é o momento de escolher sua nova família.
Diz o senso comum: ser jovem é bom, pois não há responsabilidades, contas a pagar e decisões a tomar. Bobagem. Isso também significa não ter as rédeas da vida, ser conduzido, acomodar-se enquanto o outro dirige. Há quem goste dessa posição, há quem perpetue esse suposto lugar cômodo de passageiro. Adultos infantilizados. Mulheres dependentes. Homens morando com suas mães. Filhos eternamente mimados. Povos que adoram seus ditadores.
Me perguntaram: mas não há nada na sua infância que tenha saudade? A primeira coisa que veio a minha cabeça foi andar a cavalo na fazenda, mas logo pensei: ainda ando a cavalo; melhor, galopo, tomei as rédeas e não mais estou na garupa dos meus pais. A sensação é de mais risco, claro, mas também de mais vida, da minha vida ali, mesmo que em risco. E é preciso assumir os riscos para assumir sua vida. Disso eu sei.
Como é bom ser adulta...
Quando se é adulto você pode conversar e refletir sobre a vida com autoridade, com inteligência e escolher com quem quer compartilhar isso. Interlocutores com quem podemos conversar toda uma noite, uma vida. Por outro lado, me aborreço rapidamente com a tagarelice infantil sem sentido. Ou das infinitas perguntas que, previsivelmente, levam a lugar nenhum. Há quem veja nelas um sentido filosófico. Pra falar a verdade prefiro as perguntas de Nietzsche, do que as bobagens infantis de, de onde vem a nuvem? Prefiro saber de onde vem a vontade de potência, sinceramente! Relações adultas são as mais imprevisíveis e instigantes para o nosso pensamento, para a nossa vida. Quero ser adulta, para escolher. Para saber do que gosto ou não, para mudar de opinião e assumir com serenidade as minhas incertezas (sem os dramas da adolescência).
Mesmo que essas escolhas adultas envolvam decisões difíceis, como afastar-se de alguém de sua família. De eleger amigos. De ir embora quando o papo ficar chato. De comprar um livro. Ler, (em silêncio). Ficar sozinha. Ou, se não quiser, convidar alguém. Desfrutar de uma vista, tomar um vinho. Quero ser adulta, inclusive, para poder pensar se fui injusta ou não e poder formular um sentido ou uma falta de sentido das minhas atitudes. Voltar atrás, se ainda der tempo. Ser adulto é um segundo nascimento. Não mais de uma criança. Mas, de alguém que pode tornar-se o que é: adulto.

julho 07, 2010

ALMA IMORAL> A Alma Imoral




Todos nós nos deparamos com lugares que se tornam estreitos em determinado momento. Estes lugares, que outrora serviram para o nosso desenvolvimento e crescimento, se tornam apertados e limitadores. Qual é o caminho então?

Não é voltar e se acomodar,

Não é lutar com o passado,

Não é desesperar-se

e muito menos esperar,

Mas, marchar.

Esse profundo ato de confiança em si e no processo da vida garante a passagem pelo vazio. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível


Editei e interpretei passagens do texto que pode ser lido na íntegra no livro "A Alma Imoral", de Nilton Bonder (Ed:Rocco, p. 46-51). Livro adaptado para o teatro pela atriz Clarice Niskier,


Nessa passagem o autor reinterpreta a saída do povo hebreu do Egito, guiados por Moisés...

junho 13, 2010

Alunos da Univ. Lusófona de Cabo Verde (África) repercutem artigo da professora

Alunos da Licenciatura em Ciências de Comunicação da Universidade Lusófona de Cabo Verde (África), que gerenciam o site Comunicare repercutiram, para a minha alegre surpresa, um dos meus artigos "A defesa de uma nova objetividade jornalística".
Abaixo o link:

http://comunicare2009.blogspot.com/2010/06/sobre-autora-de-defesa-de-uma-nova_07.html,

Desde já meus sinceros agradecimentos,

Att,

Isabelle Anchieta

maio 15, 2010

LIBERDADE E ESCOLHAS> Sobre a liberdade e o fracasso de estar diante dos caminhos possíveis


Poder escolher é a mais potente forma de liberdade, mas que carrega o peso da decisão, da escolha acertada. Por isso a juventude é a fase mais perturbadora de nossa existência e o momento de maior liberdade. É a fase onde acionamos com toda a força a nossa imaginação, quando desenhamos em nossa mente como seria seguir cada caminho possível. Trata-se de um momento onde estamos indeterminados, no sentido de que tudo pode ser. Tudo pode vir a ser. Há uma grande euforia e esperança nisso. Achamos que podemos ser ricos, que poderemos casar com uma pessoa ideal e etc.
No entanto, poucos falam do risco que é o de tentar manter esse estado de indeterminação para além do "timing" das escolhas. Sermos jovens eternamente. Muitos têm o feito ultimamente... Na dúvida de qual mulher escolher, desdobram-se em três. Na possibilidade de escolher entre morar sozinho e viajar o mundo, continuam na casa dos pais. Na dúvida de qual carreira seguir trancam o curso no meio do caminho para trabalhar em um setor medíocre. O que estou dizendo é: manter o estágio da indeterminação, na tentativa vã de manter a liberdade a ela associada é a maneira mais arriscada de condenar-se ao fracasso de não ter tido a coragem de apostar em um caminho. A aparente liberdade é, assim, uma grande derrota, porque você perde o “bonde”, o horário de sua saída. Imaginamos que podemos viajar todas as viagens, quando na verdade não é possível compatibilizar caminhos incompatíveis. É preciso não ver algo, para que outro se realize. É preciso escolher um trecho em detrimento de outro. Ao tentar compatibilizar todos os possíveis, eles tornam-se impossíveis. Do contrário nem um, nem outro se realizam. Viram imaginação, viram nada. Oscilar entre todos os caminhos, não se decidir é um perigo. Pois, ao manter a indeterminação você inviabiliza sua felicidade pessoal e social. Você inviabiliza a oportunidade de viver “uma” vida.
OBS> caso se interessem pelo tema sugiro que leiam “A educação sentimental” de Flaubert (literatura) ou a instigante análise sociológica de Pierre Bourdieu em "As regras da arte, gênese e estrutura do campo literário"

abril 25, 2010

Grace Kelly: uma imagem precisa e poética

Compartilho um das imagens que pesquiso. Ela, entre outras, são alvo de minha tese de doutoramento "O poder da imagem na construção do feminino". Nesta: Grace Kelly. Achado feliz!
Uma imagem com enquadramento preciso e poético, um desses raros instantes fotográficos que imortalizam-se em nossa coleção mental.

abril 12, 2010

A RUÍNA> O homem como ruína: a trágica dinâmica entre a criação e a destruição de nossas vidas


Criamos. Desejamos. Vencemos os limites e todas as forças da natureza. Planejamos. Construímos pontes. Atravessamos. Mas, somos defraudados. Desmoronam as casas. Decompõe-se o metal, a vegetação cresce em volta das paredes. A enxurrada leva nossas conquistas. Quem vence? Nossa vontade de planejar nosso destino ou a natureza? Quem vence? Nossos sonhos ou a frustração de um imprevisto que o Outro nos impõe, amargamente? Queremos, nem sempre podemos. Desejamos e frequentemente a realidade nos toma, nos sequestra os sonhos. Tinge de preto as cores do imaginário. Saímos de uma linda casa para habitar uma prisão. De uma linda vista, para o nada: uma parede. A vida às vezes é uma colisão entre a nossa vontade e a dela. Somos impotentes diante da altura de sua voz. Calamos. Deixamos ruir o que construímos impassíveis, aterrorizados.
“Na nossa alma as forças constrõem ininterruptamente. E, ininterruptamente elas são quebradas, desviadas, rebaixadas pelas outras forças que atuam em nós” (SIMMEL, p.). A alma nunca alcança a vitória decisiva. Mas, “o ritmo inquieto da alma não admite o estado definitivo” da destruição. Cria, cria, desesperadamente, pois não pode admitir que a natureza nos tome, nos aniquile. Do contrário seria suicidar-se em vida. Admitir passivamente a derrocada. Ver ruir a casa, sem tentar ao menos retirar os móveis, o álbum de fotos.
E é na ruína onde se manifesta a forma mais latente e gritante entre o que quer e o que não pode ser. E como um pedaço do que não é mais, a ruína integra-se ao ambiente. Uma espécie de vontade da natureza de contrariar a vontade humana e reintegrar, assim, o edifício a paisagem. Uma vingança a violação que a nossa vontade impõe a natureza. E, é na decomposição e no crescimento da vegetação que aos poucos a ruína une-se a paisagem e torna-se, assim, como uma árvore ou uma pedra mais um elemento do horizonte, ao contrário do que acontece com a cidade, com a vila e as casas que ficaram intactas e claramente distintas da paisagem. A natureza nos toma de assalto. Rouba-nos a vontade.
Essa é a trágica dinâmica da vida: entre o sonho e a desilusão, entre o planejamento e o imprevisto, entre a vontade do espírito e a força da natureza. Mas, o trágico não deve ser tomado como algo necessariamente ruim, como bem insistia Nietzsche em o “Nascimento da Tragédia”. Na sua origem, no teatro grego, o trágico referia-se sempre a um final imprevisto. Podia ser ruim, bom, inconcluso, como a vida. O trágico refere-se, assim, a pulsão da vida, a sua imprevisibilidade e nisso a sua força. Pois, em alguns momentos a mudança de rota que a vida nos impõe produz resultados ainda mais belos do que os que planejamos – e geralmente é isso que ocorre. Nesse resultado há, enfim, o casamento da nossa vontade com a natureza. Uma unicidade, um encontro de uma força estética única. Pois é na ruína, como símbolo e resultado do embate entre a “aspiração ao alto e a queda para baixo”, que se dá a reconciliação do homem com a natureza. A “volta para casa”. Observem como a ruína produz uma sensação de paz...Uma espécie de “harmonia misteriosa” que torna tudo mais belo, mais sentido, ou se preferirem, mais humano. Ao fim, o homem é uma ruína. Pois nele também está a natureza, e com ela a sua luta e sua reconciliação. Porque “o que constitui a sedução da ruína é que nela uma obra humana é afinal percebida como um produto da natureza” (Simmel)

março 26, 2010

COERÊNCIA E INCOERÊNCIA> O sentido da vida: entre a coerência e a incoerência








“O sentido de coerência lógica ou teleológica tem poder sobre os homens em todas as partes, mais do que qualquer outra força da cena histórica” (Max Weber, in:Considerações Intermediárias, p. 318).




Porque somos atraídos pela religião? Porque cremos, sem provas? O Deus católico, sem face, que exige a fé sem questionamentos! Ou, no outro extremo, no campo científico: porque nos importa tanto que uma pesquisa ateste algo como verdadeiro? Que legitime nossas escolhas? É comum dizer “mas, tem uma pesquisa que comprava o que estou dizendo...” Porque necessitamos de um sentido de vida para viver? Porque essa necessidade por uma coerência entre as nossas ações e sua finalidade ética?
Pois, mesmo os ricos, aparentemente tidos como os “felizes” precisam justificar sua felicidade, dar a ela um sentido. O movimento protestante, como bem comprovou Weber, nasce exatamente como uma tentativa da nova classe burguesa de ficar em paz com seu enriquecimento, de justificá-lo. Assim como os pobres, que precisam de uma explicação para suportar seu sofrimento, mesmo que seja a promessa de um paraíso após a morte. Assim, ou no "aqui agora", para os ricos: ou no "para além da vida" para os pobres, a existência precisa justificar-se, ter sentido, coerência.
É nesse sentido que tanto a religião, como a ciência são, ambas, formas de racionalizar o mundo, de dar a ele uma coerência, uma resposta. Temos de nos agarrar a algo, temos de acreditar que não é em vão a nossa existência.
Mas, há ainda outra posição, que não é nem a do cientista, nem a do crente. Qual seja? A do homem, mulher que assumiu a incoerência do mundo. Daquele que a princípio está consciente que na vida não há mais do que sentidos provisórios, históricos e repletos de valores e morais. Aquele que assumiu que não há verdade, não há sentido. Nem crente, nem cientista, mas um niilista. Um descrente. O cético.
E há nesse assumir a incoerência inerente a vida duas possíveis posturas. Uma é negar a vida, é tornar-se indiferente a tudo, é desistir dela. É o homem que percebeu que o campo ideológico domina toda a esfera da vida social e a conduz. O homem que se deu conta que tudo não passa de uma construção de um sentido para o mundo> tanto no campo religioso, como científico. Não há verdade, não há sentido último. E, por essa razão ele desiste de lutar uma luta vã. De ser mais um soldado de uma guerra que não é sua, travestida em um falso sentido comum, "patriótico". Desiste de participar do jogo e comete, assim, uma espécie de suicídio simbólico (o que Nietzsche denominou de niilista fatigado).
Mas, há ainda uma segunda postura, a mais interessante ao meu ver. Daquele que ao assumir a incoerência do mundo não tomou uma atitude desinteressada frente a ele. Ao contrário, percebeu as belezas da incoerência, as nuances e a complexidade de suas cores, ao contrário dos tons uniformes, homogêneos da coerência. Trata-se de um olhar apurado, que não precisa de bengalas religiosas e científicas para dar sentido a vida. A vida tem sentido em si mesma, em toda a sua incoerência, em tudo o que pode nos surpeender e oferecer. Niilista ativo: o legítimo afirmador da vida no que há de bom e de mal. Um afirmador da incoerência.