março 01, 2011

MALDADE> "Quero que me ajude a encontrar minha própria maldade"


Foi assim que uma paciente do psiquiatra inglês Donald Winnicott iniciou sua terapia. Ela sabia que todos nós precisamos de uma dose de agressividade (inata a qualquer ser humano) para agir e amadurecer. Uma vida politicamente correta é uma vida moral. E uma vida moral é um artifício, um controle idealizado do desejo, uma castração. Resumindo: uma hipocrisia. Que um dia ou outro cobra seu pedágio, em formas ainda mais violentas e efetivamente destrutivas. “É preciso atentar para o fato de que a fraqueza, o retraimento, a omissão são tão agressivos quanto à manifestação aberta de agressividade. Ser roubado é tão agressivo quanto roubar. O suicídio é fundamentalmente igual ao assassinato” (1958b, p. 355).
É preciso sair do plano moral, das ideias para a ação. A agressividade é a passagem para tomar as rédeas da vida, crescer, amadurecer. “Em sua origem a agressividade é quase sempre sinônimo de atividade” (Winnicott). A passagem da infância – onde nossa identidade se funde a de nossos pais e ao ambiente _ para a vida adulta, que exige a destruição desses seres e dessa vida ideal e irreal que criamos. Um corte necessário para constituirmos um eu separado. De “objetos-subjetivos” (simbiotizados) para “objetos objetivamente percebidos”, que tem existência própria. Ao separá-los de nós_ simultaneamente_ ganhamos vida. Eu e os meus pais. Eu e a vida-real, sem ingenuidade.
“Não podemos continuar a viver num mundo que é feito apenas de nossas projeções” (Winnicott). Viver em um mundo de fadas e finais felizes. É preciso estar na vida em comum para viver uma vida. E essa “vida real” está situada “fora da área de nosso controle supostamente onipotente” de um mundo que podemos criar em nossa imaginação, em nossos sonhos sempre futuros...
Para amadurecer é preciso destruir nosso mundo ideal, onde nos refugiamos quando nos sentimos fragilizados. Destruir quem idealizamos como seres perfeitos para torná-los, enfim, o que são: humanos. “Alguém que pode ser temido, odiado, amado, respeitado" (1986 d, p.104).
Pois, para que a relação de amor se realize é preciso ter um “eu” e um “alguém” para se amar, como seres em si. Separados. Mas, ligados por um desejo que os aproxima livremente.
O amadurecimento é, portanto, um processo que segue os passos: destruição das projeções subjetivas> externalização, ou separação eu - outro> uso do objeto separado, ação, realização.
Essa consciência de si gera responsabilidade e preocupação em relação a sua ação no mundo, na medida em que percebemos que podemos mudar as coisas e as pessoas a nossa volta.
Mas, não podemos tomar a destruição como algo em si. Isso seria o niilismo, este seria o final do Cisne Negro. Não que defenda ingenuamente um final feliz. Não é isso. Mas, se não há reparação, reconstrução não nos é dado o direito de viver o nosso lado destrutivo, sem que ele nos consuma completamente. Deixar a destruição operar é tão nocivo como adotar uma vida completamente moral e politicamente correta. No fundo os cisnes brancos e negros padecem da mesma pulsão de morte. São iguais.
A reparação é um ambiente que nos é dado para arriscarmos, para sermos agressivos, mas que possamos ter a esperança de juntar depois os cacos do que quebramos em uma nova forma. Restaurada. Um espaço capaz de reconhecer e aceitar a agressividade, para que ela, enfim, integre nossa personalidade sem uma censura moral. Para que possamos vivenciá-la socialmente sem perdurar na culpa por mais tempo que o necessário. Essa reparação “será o elemento central em nossa capacidade de relacionar-se com outros, de defender nosso território, de brincar e de trabalhar. Se não for integrada, a agressividade terá que ser escondida (timidez, autocontrole) ou cindida, ou ainda poderá redundar em comportamento anti-social, violência ou compulsão à destruição” (Winnicott).
A reparação não é um final feliz, mas a possibilidade mesma de viver o seu lado destrutivo – sem que ele o destrua. Uma agressividade enquanto voracidade pela vida, unindo potencialmente agressão e amor.

> Para quem quiser ler mais sobre Winnicott recomendo o texto de Elsa Oliveira Dias, disponível pelo link

4 comentários:

Claudia Sciré disse...

A potência da mudança em nossas vidas é algo que não deve ser ignorado... carregamos ela dentro de nós, talvez na forma dessa agressividade, que vc enuncia... mas como vc também diz, por alguns motivos, tendemos a ocultá-la dentro da gente, como se não fosse algo digno de ser mostrado.Aí eu pergunto, que força outra agressiva é esta que nos faz guardar a agressividade?

H. Rodrigues disse...

Isabelle,
Belíssimo texto!
É bom saber que vc faz parte do grupo de resistência ao politicamente correto e ao bom-mocismo!
Beijos,
Herbert

Isabelle Anchieta disse...

Querida Cláudia,
sua pergunta me deixou pensando...
realmente há uma agressividade muito maior na repressão dos nossos impulsos e desejos. Acho que a sociologia e mesmo a psicologia tentam dar essa resposta para esse controle que sofremos, ora social, ora internalizado, orquestrados...
Mas, para além das nossas ciências sociais confesso que o Winnecott me pegou...não tanto pela noção de agressividade, mas a de restauração. Isso desatou um nó para mim. Pois não trata-se unicamente de viver a agressividade, mas de como restaurar os mitos que quebramos em uma ordem construtiva e amadurecida.
Agir, mas com um norte restaurador. Quebrar, mas sabendo quebrar de modo a consertar.
Me veio uma imagem estranha na cabeça agora, mas pode ser um exemplo...sabe quando quebram novamente uma parte de nosso corpo, o nariz, a perna, para daí consertá-la "bem". Pois é, acho que é essa agressão com vista a um reparo que me alentou.
A agressão por si não faz sentido, assim como a repressão total dela.
Nem ditadura, nem anarquia. Tanto que já estamos aflitos com o depois da guerra civil no mundo árabe. Ok, estamos nos livrando dos ditadores por uma ação agressiva e quem sabe necessária, mas o que vamos restaurar depois dessa destruição?
Acho que precisamos, sim, desse sentido restaurador, reparador para agredir, agir, mudar o estado das coisas em uma nova ordem.
Nossa, me empolguei, rs
Mas, suas intervenções sempre me motivam,
Bjs e obrigada

Érico Oyama disse...

Inúmeras fórmulas de como alcançar o sucesso e ser uma pessoa perfeita estão disponíveis no cotidiano, seja na forma de livros de auto-ajuda ou com aquela tia que sempre sabe o que melhor ou não. Mas e o id? Onde ele fica no meio desse emaranhado de teorias infalíveis? Será que é melhor viver bem aos olhos dos outros a ter paz consigo mesmo?
Os erros não são mais permitidos e experiências empíricas sucedidas de erros - essenciais ao aprendizado - são cada vez mais raros. As aventuras da sociedade contemporânea se restringem às emoções vividas em frente a uma tela de cinema.