Março 01, 2012

A curiosidade é mais saudável que a dúvida




Vivemos um momento particular: nos libertamos de um conjunto de dogmas políticos, crenças religiosas, mitos científicos e literários e isso não nos tornou melhores. Somos, sim, mais cínicos, mais críticos, mais desinteressados: indiferentes. Porque não, preguiçosos! É a sociedade do “para quê?” Do “tanto faz”, já que não há sentidos fortes para buscar. O mundo torna-se uma fábula,  “o sonhar, sabemos que se está a sonhar” (NIETZSCHE). No entanto, fizemos mau uso dessa reflexividade potencial.
A vida possui, sim, sentido e as respostas, ao contrário do que julgamos estão em aberto e precisam ser buscadas, assim como um arqueólogo busca suas evidências _ mesmo que não possa reconstruir toda a peça.  Se desacreditarmos nessa busca a vida torna-se uma falácia, um esforço desnecessário. Corremos o risco de adotar um ceticismo negativo. O que nos levaria a improdutiva equação da crítica pela crítica. Um ponto final que instaura a indiferença: o niilismo. A dúvida deve ser uma etapa de um ceticismo investigativo, não o seu fim, sob pena de nos tornarmos apáticos e pouco engajados socialmente. Pessoas que não acreditam no jogo são os cínicos negativos contemporâneos, os que desistem antes de entrar na vida, de se arriscar.
Pena que poucos conheçam a proposta do filósofo e matemático grego Sexto Empírico[1] (sec. 2). Ele oferece uma via interessante: o ceticismo investigativo. Uma proposição filosófica que simultaneamente se afasta dos que alegam ter encontrado a verdade _os estoicos, Aristóteles, Epicuro, Platão; mas igualmente recusa o dogmatismo negativo, que coloca tudo em dúvida _ Carnédeas, Citômaco e Descartes.
Uma postura que não duvida dos fenômenos, de que as coisas acontecem, mas duvida daquilo que se afirma dogmaticamente como absolutamente verdadeiro ou falso. Nessa via a busca pela realidade não é descartada, "mas avaliada como algo de tal modo importante que não pode ser reduzida a uma só explicação, a um só argumento". Trata-se da proposição de uma “filosofia da investigação”, que nos lança sempre na busca de outras explicações, experiências:  conhecimentos. Um horizonte para onde caminhamos incansavelmente. Mas, nem por isso, o desacreditamos. Já dizia, sabiamente, o escritor mineiro Guimarães Rosa que “o real não está nem na saída, nem na chegada, está na travessia”.
Saber conferir a essa travessia um sentido ético forte é o que impulsiona os passos, a caminhada. Há sim, razões em buscar o conhecimento, os sentidos. Seria agora, parafraseando Descartes, um "penso, logo há sentidos a se buscar para a existência". A impossibilidade da totalidade não pode impedir a motivação da aproximação com a complexidade da vida. Pois é no inacabado que reside o horizonte, que nos leva a uma aventura excitante ao encontro de novas pessoas, novas culturas, novos conhecimentos. Pois, mais saudável que a dúvida é cultivar a curiosidade


por Isabelle Anchieta

[1] Para ler mais sobre o filósofo Sexto Empírico recomendo tb o arttigo: CONTE, Jaimir. “O início: Sexto Empírico e o ceticismo pirrônico”. In: Revista Cult, ano 11, nº 121.  Disponível:< http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/o-inicio-sexto-empirico-e-o-ceticismo-pirronico/>

Dezembro 31, 2011

GANÂNCIA> O que nos move: ganância, medo e preguiça?!



“Em geral somos movidos por ganância, preguiça ou medo. Estamos sempre em busca do meio mais lucrativo, mais fácil e seguro de fazer as coisas” afirma o arqueólogo e historiador Ian Morris. As palavras do historiador andam me atormentando. Ganância, medo e preguiça. Nenhuma delas parece ser digna de algo que gostaríamos de nos identificar. Mas, ao mesmo tempo fazem sentido, incomodam porque é difícil confessar sua presença. A mais  incômoda? A preguiça.
Minha maior inimiga. Me irrita como um parente chato do qual não podemos escapar, como uma cama boa,  uma comida que não conseguimos parar de comer,  um atraso a um compromisso importante. Desse estado meio bom, meio ruim. De evitar a vida. Esse estado lento, sonolento, de indiferença. De morte lenta...
Minha preguiça é letal,
 É quando paro de acreditar no jogo, nas minhas forças para entrar nele. Me pergunto sempre: Vou assistir a peça ou atuar nela?
Não sei se foram os efeitos colaterais da academia que produziram esses estados passageiros de niilismo em mim. O conhecimento nos apresenta as mazelas humanas, nos coloca em estado de alerta e desconfiança. O ceticismo e a desnaturalização fundamentam seus princípios. Eles podem nos levar à crítica, à consciência e à revolução, mas podem, colateralmente, desencantar o mundo a um ponto irremediável: o da indiferença, do niilismo. Como tenho medo desse sentimento...
O medo. Chegamos nele. De que temos medo? Um dia percebi que essa resposta determina em grande medida quem somos. Durante uma reportagem com meninos de rua tinha uma pauta: quais são os medos dos meninos que dão medo? As respostas eram um misto de medos reais misturados com fantasias infantis. “Tenho medo de quando todas as luzes se apagam. Alguém pode atirar em nós enquanto dormimos”, confessa R.M, de 10 anos. “Tenho medo de bicho venenoso, de gente eu não tenho medo não”, responde com gesto altivo J.C, de apenas nove anos. “Tenho medo de machucar alguém”, me surpreendeu profunda e definitivamente M.R de 18 anos. Já que o medo, em geral, é algo que nos escapa, que está fora, longe do nosso controle, como os acidentes, a violência e etc. Mas M.R me ofereceu, com aquela inesperada resposta, uma intrigante reflexão: o medo que deveríamos ter de nós mesmos, da história que construímos, das experiências pelas quais passamos, da forma que respondemos a elas e, especialmente, da influência daquilo que nos tornamos sobre os demais. Como afetemos os outros.
Como mais afetamos? Agindo ou nos omitindo? Uma mãe ausente e indiferente é pior que uma mãe presente da forma errada para seu filho? Ou mesmo nosso país: será que ele não é afetado por nossa indiferença política? Por nossa apatia diante da corrupção?
Nesse ponto concordo com a estranha afirmação do historiador ao dizer que a preguiça move o mundo. Move sim. O não fazer é um tipo ruim de fazer que as coisas aconteçam, uma forma de afetar os demais. Um amigo que desistiu de lutar, que deprime-se, nos afeta. Muito!
Por isso, dos sentimentos descritos pelo professor acho a ganância o preferível. Nada louvável, eu sei, já que sempre nos ensinaram que expressar nossa gana, nossa vontade de poder, de reconhecimento e sucesso é ruim. Sinônimos de vaidade e egoísmo.  Que bom que o Nietzsche me libertou desse pudor moral. Aprendi, como ele (e com minha mãe) que não devemos dissimular o que desejamos. Eu quero! De assumir os desejos de grandeza, de saber que esse desejo é legítimo, viável e que pode, sim, ser realizado para colaborar com os demais. Pois todas as criações apaixonadas, por mais que não tivessem o outro como objetivo,  acabaram contribuindo mais do que as ações que iniciam-se com razões supostamente altruístas.  Pois, o que nos move é essa paixão em criar, realizar. Santos Dumont, ao criar o avião, não poderia imaginar os seus usos. Ele queria voar, tinha paixão. Essa gana não reduz a solidariedade de sua criação. Pois se não fosse movido por esse “egoísmo” em se realizar sem restrições não teria tido as forças necessárias para levá-lo a cabo.    
Por isso, para 2012, desejo que as pessoas tenham menos preguiça, menos medo e que possam assumir sua “gana” pela vida de maneira legítima e apaixonada.

Dezembro 19, 2011

PODER E IMAGEM> Formas e poder sempre andam juntos

Caros, compartilho reportagem especial do Jornal Hoje em Dia sobre as formas femininas. Concedi entrevista para a jornalista Elemara Duarte -que faz um belo trabalho nesse jornal- abordando como as formas do corpo e as exigências estéticas são forjadas na disputa de poder simbólico entre diversas forças sociais que são institucionais e de gênero. Abaixo link do blog gordinhas maravilhosas com a matéria - o blog também é tema da reportagem, Bjs Estilo e sentimento fazem a diferença ~ Gordinhas Maravilhosas ® www.gmaravilhosas.com

Novembro 29, 2011

BRUXAS> "As bruxas e as faces do feminino", artigo na revista Mente e Cérebro

Caros,

Já nas bancas um artigo que escrevi para edição de dezembro da Revista Mente e Cérebro (Scientific American). Com o título: "As bruxas e as faces do feminino". Nele discuto a vinculação das mulheres com as práticas pagãs. Dentre elas as Tupinambás Antropófagas brasileiras - representadas em xilogravuras de artistas europeus e que influenciaram a iconografia das bruxas do séc. XV e XVI na Europa, na transição da Idade Média para o Renascimento. Erotismo, exotismo e temor marcam esse imaginário feminino. O artigo é um trecho da minha tese de doutoramento,
Confiram,

Novembro 21, 2011

JORNALISMO E CONHECIMENTO> O paradoxal estatuto do conhecimento jornalístico: entre a desconsideração e o protagonismo do saber produzido pelas notícias nas sociedades modernas


Caros, 
Acabo de publicar um artigo na Revista Intercom _ Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, Vol. 34, No 2. Eles disponibilizaram o texto na íntegra. Abaixo o resumo e o link. Estou muito contente com essa publicação em especial. Primeiro pela respeitabilidade, a revista é Qualis A pela Capes e segundo por manter meu vínculo - eterno - com o Jornalismo e sua reflexão. O que devo tanto a meus alunos e nosso vivo debate em sala e também ao que de bom tem sido feito pela imprensa e por jornalistas brasileiros.


"O paradoxal estatuto do conhecimento jornalístico: entre a desconsideração e o protagonismo do saber produzido pelas notícias nas sociedades modernas"
Isabelle Anchieta

Resumo

O conhecimento jornalístico produz um debate paradoxal: por um lado é a forma mais adequada de conhecer o presente e os fatos distantes tornando-se central nas sociedades modernas; por outro é tido como um conhecimento insuficiente, fragmentado e ideologicamente comprometido sobre realidade social. Neste artigo questionaremos: qual é, afinal, o estatuto do conhecimento jornalístico nas sociedades modernas? Iremos inserir a discussão no contexto da crise das narrativas e da ciência como verdade. Seus efeitos atingem o jornalismo de forma particular e instauram um dilema: se ele não pode legitimar-se em sua cientificidade estaria assim mais próximo do conhecimento do senso comum? Para tanto iremos comparar duas perspectivas teóricas fundadoras sobre o conhecimento noticioso: a do alemão Tobias Peucer, no século 17, e do americano Robert Park, no século 20. Nessa comparação nos interessa observar o que muda, mas especialmente o que permanece nas práticas noticiosas para, enfim, compor um ethos do conhecimento jornalístico.


http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/rbcc/article/view/6504/5575
revcom2.portcom.intercom.org.br

Outubro 27, 2011

PAZ E LUTA> A vida é luta e a paz um momento de descanso


Quem conhece essa paz? Esse intervalo curto, mas quase eterno entre as lutas que nos arrebatam?
Atravessamos panoramicamente esse mar revolto.
Num misto de medo e atração.
Quando recuar torna a perda inevitável e o avançar parece ser a única forma de sobreviver.
Seguir mesmo diante da iminência da aniquilação,
Quando os tamanhos se desfazem na luta desesperada para continuar a existir,
Essa paz
Essa paz que chega num instante, como um mar sereno. Esse mesmo mar. Incontrolável, imprevisível que ora nos pede essa energia carregada de coragem e medo, ora nos concede seu silêncio, como se fossem duas naturezas distintas, mas que comandassem única e sabiamente os nossos limites.
Essa paz,
Esse intervalo, que só faz sentido após mares revoltos, remexidos, revirados pela dança desarmônica-harmônica de seguir, adiante!!


Outubro 04, 2011

CONVITE LIPOVETSKY> Participe da "Tela Global"


Caros, 

Quero dividir  um convite 
O filósofo francês Gilles Lipovetsky transformou em exposição seu livro "A Tela Global"  em que trata a dominância das telas de computadores, celulares, cinema em nossa vida, no que chama de “ecranosfera”. A exposição será aberta em janeiro em Barcelona pelo CCCB (Centre de Cultura Contemporânea de Barcelona)
 e percorre a Europa durante o ano de 2012.

 Ele nos convida a participar,

Haverá uma exposição paralela que receberá vídeos de 2 minutos que abordem uma das telas temáticas:
História, Política, Esporte, Publicidade (moda, marcas, rebeldia), Excesso (velocidade, violência, entretenimento e etc.), Vigilância e Jogo.
  
Trata-se de uma oportunidade para professores e alunos de comunicação enviarem e exibirem seus trabalhos associados a essas instigantes provocações filosófica levantadas pelo sociólogo francês:

 “Quais os efeitos dessa proliferação das telas em matéria de relação com o mundo e os outros, com o corpo e as sensações?”
“Que forma de vida cultural e democrática anuncia o triunfo das imagens digitais? Que destino se abre para o pensamento e à expressão artística?”
“Até que ponto a vida mesma do homem contemporâneo está sendo reestruturada por essa pletora de telas?”(LIPOVETSKY, p.12,2009).  
  
Basta enviar o vídeo pelo site (lá há também pequenos vídeos explicando a proposta de cada tela temática):



Abraço,

Isabelle Anchieta

Pantalla Publicidad from Pantalla Global // CCCB on Vimeo.

Pantalla exceso from Pantalla Global // CCCB on Vimeo.

Pantalla Historia from Pantalla Global // CCCB on Vimeo.

Pantalla vigilancia from Pantalla Global // CCCB on Vimeo.

Pantalla Juego from Pantalla Global // CCCB on Vimeo.

Setembro 22, 2011

O POEMA E A PEDRA> Em um dia a pedra é um poema, no outro: pedra



Há dias que uma pedra pode inspirar um poema (que o diga Drummond), mas há outros que pedra é pedra mesmo e ponto final.



Nisso parafraseio uma fala da mineira Adélia Prado em uma palestra. Nunca me esqueci. Não seria possível. Os dias me lembram...



Em uns a vida parece repleta de sentido. Nos julgamos úteis. Amados. Desejados. Necessários;

Os propósitos parecem bons e a força para alcançá-los nos toma.
Em outros...
Nos sentimos sem energia, vazios,
A falta de sentido nos arrebata. 
E se avida não faz sentido, nossa vida parece contribuir para esse nada,
Não acreditamos no nosso valor e por isso, não sabemos porque nos dão atenção, se preocupam...
“Se me escavarem nada encontraram” só frio e solidão ou quem sabe “desejo, quase ingratidão” (Adélia Prado). 
Me pergunto: Como a mesma coisa que pode nos alegrar um dia pode, no outro, ser fruto da nossa tristeza?

Isso me lembra Khalil Gibran: “Não é a taça que contém vosso vinho a mesma que foi queimada no forno do oleiro?”

A mineira tinha mesmo razão: Um dia a pedra é um poema, no outro: pedra.
Do tédio ao entusiasmo. Do entusiasmo ao tédio.
Queria constância.
Não a encontrei,
Parece que só quem renuncia a vida _ através da religião, do niilismo, do budismo, da ignorância _ a encontra,
Não quero me esvaziar para nada sentir, ou enganar meus sentidos,

Quem sabe me conformo e passo a entender, tal como Gibran, essa indissociável e inescapável  relação

"Elas são inseparáveis.
Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama.Em verdade, vós estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria.É somente quando estais vazios que estais equilibrados.
Quando o guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua prata, então deve a vossa alegria ou a vossa tristeza subir ou descer”.



(“A Alegria e a Tristeza segundo o profeta”. Gibran Khalil Gibran, 1883 –1931. In: O Profeta, pp. 27-28). 

Agosto 31, 2011

AMIZADE> o tempo da delicadeza


Reencontrar um amigo da adolescência é um hiato que atualizar o tempo da delicadeza,
Onde a entrega era fato,
impensado,
certo,
A autenticidade era a língua,
o idioma corrente,
A desconfiança uma nuvem, escura, pequena e distante no horizonte.
Onde a alegria reinava como um bem gratuito e disponível,
E tudo era intenso: das brigas, às reconciliações.
Uma delicadeza feita de autenticidade e não de fragilidades,
De paixão e não de conveniência,
De doação e não de tempos restritos, cronometrados,
Eu encontrei esse tempo novamente no abraço de uma velha amiga,
E senti que ele não ficou para trás...

Junho 30, 2011

DECISÕES> Hoje eu tenho que decidir


Decidir que essa página em branco das indeterminações do "tudo o que pode ser" conforme-se, enfim, nas linhas de um trajeto,
É o fim da perfeição,
Dos múltiplos e infinitos caminhos dos sonhos na escolha incerta de uma realidade
Tortuosa,
Invisível aos nossos olhos,
...
Durante os momentos de decisões clamamos, em vão, os olhos das águias,
Mas, não vemos além,
Nesse ponto de cegueira a vida nos apresenta dois caminhos:
Parar no sonho ou seguir uma realidade
Optar, arriscar
Dizem que sonhar é bom: não é!
Sonhar é não ser. Sonhar é uma forma de covardia.
Realizar-se, mesmo que isso pareça infinitamente mais rude que o sonho: é ser, é errar, é tentar.
Mas, é acima de tudo viver uma vida.
Permanecer no sonho é a morte. É o não ter sido nada a espera do milagre sempre a frente do tempo, que para ser sonho, não se realiza nunca no presente...
O eterno retorno do nada.
É preciso realizar o sonho. Mesmo que essa realização seja precária, parcial,
Sob pena de nos condenarmos a mais torturante forma de viver. A convivência e a conivência com a nossa não realização, a falta de significado de nossa vida.
Como bem nos lembra Norbert Elias, na biografia de Mozart: “para se compreender alguém, é preciso conhecer os anseios primordiais que este deseja satisfazer. A vida faz sentido ou não para as pessoas, dependendo da medida em que elas conseguem realizar tais aspirações. (...) Quase todos têm desejos claros, passíveis de ser satisfeitos; quase todos tem alguns desejos mais profundos impossíveis de ser satisfeitos”
Eis a razão de nossa incompletude, mas também a nossa parcial e potencial realização nesse mundo.

Maio 22, 2011

SONHOS> Sonhar sabendo que se está a sonhar


Ser o que não se é. Imaginar o que não está. Sentir. Presentificando uma experiência contra a materialidade dada. Reinventamos o tempo. Passamos para o outro lado. Para usar outras roupas. Somos homens, mulheres. "Cross-dressing". O corpo pode ganhar novas formas. Seios, cabelos, pinturas. Lúdico. “Homo Ludens” (Huizinga).
A cultura é a nossa natureza. Brincamos de ser. Ser mulher, ser homem, adolescentes, punks, hippies, drags. Brincamos de ser o que somos nesses outros.
As estereotipas não são mais "tipos fixos", mas móveis. Sobrepõem-se. Chocam-se, mas combinam-se contra todas as probabilidades de darem certo. Dão certo. Loiras, inteligentes, Madonas, recatadas, sexys = Ladys Gagas. Conscientes de que o mundo não pode ser levado à sério. "Desdramatizar o mundo" é escolher o riso e não o conflito. É saber transitar, colocando o peso da armadura no chão em privilégio da leveza do movimento contraditório. Barroco. De ser claro e escuro. De mudar de posição. As trocas são a razão da nossa tolerância. O que é rígido não troca: separa. Tudo que troca, combina-se, choca-se, mas sempre comunica-se.
Saímos de sistemas de formalidades que hierarquizam, para informalidades que democratizam sem igualar (ELIAS,). Quem sabe um dia poderemos entender que a democracia é, na prática, e com toda justiça uma “meritocracia”. Quando as condições iguais são a base para pessoas diferentes disputarem entre si. Pois, investimos em interesses diferentes e é essa aposta e essa determinação ou melhor, paixão, que deve nos diferenciar. É a descoberta dela e seu florescimento a causa do nosso sucesso ou fracasso. Tornar-se consciente de sua paixão, escolher, apostar (que é também arriscar-se) e investir. Criar o que não estava. Tanto a si, quanto ao seu entorno. Um ser que não é mais um a priori, mas um a posteriori. Não sou “professora”, mas torno-me professora a cada vez que leciono uma aula (essa ideia devo à Vera França). Nossos lugares não são mais dados de antemão. Não somos respeitados porque temos uma nomeação ou lugar social. O respeito é uma conquista movida por um esforço ininterrupto...
De ser o que se deseja ser. De tornar-se o que se é.
De "sonhar, sabendo que se está a sonhar".

Abril 12, 2011

CABELO E SOCIEDADE >Os sentidos sociais dos cabelos são tema de entrevista publicada na Folha de São Paulo


Caros,
Concedi entrevista para o jornal Folha de São Paulo (caderno Equilíbrio) sobre as mudanças do sentido social dos cabelos femininos. Estou preparando um comparativo, década por década, para a tese. Na reportagem da Folha há um pequeno trecho da pesquisa que pode ser acessado pelo link:


Março 26, 2011

ESPERANÇA X PAIXÃO> A esperança é o pior dos males


Rosetti, 1828
Aprendemos com o mito de Pandora e de sua caixa que a esperança é a “última que morre”. Para quem não conhece, Pandora é um mito grego para explicar a criação da primeira mulher mortal. Só haviam homens na terra e eles não possuíam inteligência vivendo como bestas (sem reflexividade, cultura e técnicas). Um deus titã chamado Prometeu quis enganar a Zeus (deus que governa os demais) e ajudar os homens levando o fogo divino do Monte Olímpo (que representava a inteligência) para a Terra. Algumas versões relatam que Atena o teria ajudado. Furioso Zeus castiga Prometeu. Acorrenta-o no monte Cáucaso onde todos os dias uma ave picava-lhe o fígado, curando-se todas as noites. Num ciclo infindável de sofrimento, cura e sofrimento.
Zeus decide, igualmente, vingar-se dos homens criando a mulher. Denominada de Pandora, "a rica em presentes". Um dos titãs, Hefesto, a fez assim por ordem de Zeus, reunindo todos os dons dos Deuses: Atena (Minerva) lhe deu a vida com um sopro e ensinou-lhe a arte da tecelagem; Afrodite (Vênus) deu-lhe a beleza; Apolo confere-lhe a voz suave do canto e a música; Hermes (Mercúrio) a persuasão. Por tudo isso ela recebeu o nome de Pandora: "a que possui todos os dons". Ela seria a forma mais perfeita e eficaz para levar o malefício para a Terra. Ao abrir sua caixa espalha todos os males para os homens. A única coisa que Pandora consegue manter dentro dela é a Esperança.
Uma última benevolência de Zeus? Não. O pior dos males enviado aos homens (e mulheres).
Desesperar. Esperar. Esperança. A crença de que tudo será melhor amanhã. Que a vida sempre nos reserva algo bom ao fim. Uma consolo para termos paciência na dor, pois "o que é seu está guardado" (como a esperança na caixa de Pandora). Acorrentados, imobilizados pela espera do melhor perpetuamos a dor.
No fundo o castigo de Prometeu e dos homens é similar: “Zeus queria, com efeito, que o homem, mesmo torturado por outros males, não rejeitasse contudo a vida, mas continuasse a se deixar torturar sempre de novo” (Nietzsche, HDH, p.75).
“Para isso dá ao homem a esperança: na verdade ela é o pior dos males, pois prolonga os tormentos do homem” (Nietzsche, HDH, p.75)
Mas, o que nos faz lutar? Agir, depois que perdemos a esperança? A paixão. Sermos arrebatados por algo. Aquilo que captura todas as nossas forças.
A paixão é feita de violência. De urgência. Não há moderação, mas excesso. Entrega. Risco. Não nos preservamos. Não poupamos uma gota de nossa energia e encontramos outras mais quando julgamos ter perdido todas.
Queremos e queremos agora.
Abundam forças na paixão. Fazermos coisas que não nos julgávamos capazes. Superamos a nós mesmos. O impossível: possível. A paixão é feita de entusiasmo. De comover-se. Mover-se. Ela não é uma espera, mas uma coragem alegre.
Grandes são os homens e mulheres que perderam as esperanças, mas mantiveram-se fiéis as suas paixões.

Março 23, 2011

FACEBOOK E AUTO-REPRESENTAÇÃO> Facebook, o novo espelho de narsciso(a)




Assino na edição de abril da revista Mente e Cérebro (Scientific American) o artigo que trata do Facebook, como nova forma de sociabilidade, explicando histórica e socialmente o nosso fascínio pela imagem
Confiram, já está nas bancas em SP e RJ e a partir do dia 25 nos outros estados,
Clique no link para o site da revista com trecho do artigo,

Março 09, 2011

BELEZA E PERIGO> Beleza como risco: o caso da jornalista Lara Logan durante conflito no mundo árabe



A agressão a jornalista Lara Logan levantou o debate sobre a inadequação da função de correspondente de guerra ao gênero e aparência _ obscurecendo o fato de que mais de 140 jornalistas homens foram agredidos. Eis o limite social da beleza: o seu risco. Como as mulheres podem experimentar a autonomia laboral e do seu corpo, sem que isso seja um aval de domínio e agressão? Mas, afinal, porque associamos a beleza feminina a um risco iminente? Como essa associação surgiu e porque ela ainda faz sentido nos dias de hoje?

Março 01, 2011

MALDADE> "Quero que me ajude a encontrar minha própria maldade"


Foi assim que uma paciente do psiquiatra inglês Donald Winnicott iniciou sua terapia. Ela sabia que todos nós precisamos de uma dose de agressividade (inata a qualquer ser humano) para agir e amadurecer. Uma vida politicamente correta é uma vida moral. E uma vida moral é um artifício, um controle idealizado do desejo, uma castração. Resumindo: uma hipocrisia. Que um dia ou outro cobra seu pedágio, em formas ainda mais violentas e efetivamente destrutivas. “É preciso atentar para o fato de que a fraqueza, o retraimento, a omissão são tão agressivos quanto à manifestação aberta de agressividade. Ser roubado é tão agressivo quanto roubar. O suicídio é fundamentalmente igual ao assassinato” (1958b, p. 355).
É preciso sair do plano moral, das ideias para a ação. A agressividade é a passagem para tomar as rédeas da vida, crescer, amadurecer. “Em sua origem a agressividade é quase sempre sinônimo de atividade” (Winnicott). A passagem da infância – onde nossa identidade se funde a de nossos pais e ao ambiente _ para a vida adulta, que exige a destruição desses seres e dessa vida ideal e irreal que criamos. Um corte necessário para constituirmos um eu separado. De “objetos-subjetivos” (simbiotizados) para “objetos objetivamente percebidos”, que tem existência própria. Ao separá-los de nós_ simultaneamente_ ganhamos vida. Eu e os meus pais. Eu e a vida-real, sem ingenuidade.
“Não podemos continuar a viver num mundo que é feito apenas de nossas projeções” (Winnicott). Viver em um mundo de fadas e finais felizes. É preciso estar na vida em comum para viver uma vida. E essa “vida real” está situada “fora da área de nosso controle supostamente onipotente” de um mundo que podemos criar em nossa imaginação, em nossos sonhos sempre futuros...
Para amadurecer é preciso destruir nosso mundo ideal, onde nos refugiamos quando nos sentimos fragilizados. Destruir quem idealizamos como seres perfeitos para torná-los, enfim, o que são: humanos. “Alguém que pode ser temido, odiado, amado, respeitado" (1986 d, p.104).
Pois, para que a relação de amor se realize é preciso ter um “eu” e um “alguém” para se amar, como seres em si. Separados. Mas, ligados por um desejo que os aproxima livremente.
O amadurecimento é, portanto, um processo que segue os passos: destruição das projeções subjetivas> externalização, ou separação eu - outro> uso do objeto separado, ação, realização.
Essa consciência de si gera responsabilidade e preocupação em relação a sua ação no mundo, na medida em que percebemos que podemos mudar as coisas e as pessoas a nossa volta.
Mas, não podemos tomar a destruição como algo em si. Isso seria o niilismo, este seria o final do Cisne Negro. Não que defenda ingenuamente um final feliz. Não é isso. Mas, se não há reparação, reconstrução não nos é dado o direito de viver o nosso lado destrutivo, sem que ele nos consuma completamente. Deixar a destruição operar é tão nocivo como adotar uma vida completamente moral e politicamente correta. No fundo os cisnes brancos e negros padecem da mesma pulsão de morte. São iguais.
A reparação é um ambiente que nos é dado para arriscarmos, para sermos agressivos, mas que possamos ter a esperança de juntar depois os cacos do que quebramos em uma nova forma. Restaurada. Um espaço capaz de reconhecer e aceitar a agressividade, para que ela, enfim, integre nossa personalidade sem uma censura moral. Para que possamos vivenciá-la socialmente sem perdurar na culpa por mais tempo que o necessário. Essa reparação “será o elemento central em nossa capacidade de relacionar-se com outros, de defender nosso território, de brincar e de trabalhar. Se não for integrada, a agressividade terá que ser escondida (timidez, autocontrole) ou cindida, ou ainda poderá redundar em comportamento anti-social, violência ou compulsão à destruição” (Winnicott).
A reparação não é um final feliz, mas a possibilidade mesma de viver o seu lado destrutivo – sem que ele o destrua. Uma agressividade enquanto voracidade pela vida, unindo potencialmente agressão e amor.

> Para quem quiser ler mais sobre Winnicott recomendo o texto de Elsa Oliveira Dias, disponível pelo link

Fevereiro 24, 2011

DESPERDIÇAR O TEMPO> O tempo passou na janela...


Dedico esta postagem a duas grandes amigas e a mim.
Nós três vivemos um momento muito parecido. Sei que é estranho dizer “a mim”, mas às vezes escrevo para ver se escuto também...
Confesso que não sou tão coerente, muito menos consigo honrar tudo o que penso.
Mas, voltando... o que está acontecendo, simultaneamente, nessas três histórias? A consciência de um vazio. Ele se dá por três razões distintas (ás vezes interligadas): limites físicos, limites profissionais, limites afetivos.
O vazio de perceber, um dia, que a vida transcorre sem a sua necessidade. Que as pessoas podem ser felizes ao lado de outras pessoas. Que no trabalho há colegas tão queridos como você e que se morrermos _ chorarão_, mas todos seguirão de alguma forma depois que o sofrimento passar.
Paramos para ver a banda passar pela nossa janela.
Nesses tempos distintos e tragicamente entrelaçados:
Vemos pessoas felizes, saudáveis, trabalhando e tendo sucesso, amando e sendo amadas.
Mas, simultaneamente, temos a sensação de estar e de não estar ali,
Do outro lado da janela,
Isolados, desolados ; imobilizados.
Acontece algo cíclico: sabemos que temos de agir, mas não temos mais energias para agir e quanto mais tomamos consciência da nossa responsabilidade nesse processo, menos fazemos para mudá-lo.
A vida vai ficando distante, como a banda... e sabemos que se não estamos na banda, não estamos na vida...
Uma pequena morte, melhor: um suicídio.
Autodestrutivo.
Deixamos transcorrer contra nós o tempo. Sabendo que ele está nessa posição: contra. E, essa consciência, melhor, essa conivência é perversa. Há um deleite em assistirmos a nossa derrocada, sem agir, sem mover-se da cadeira. Não há forças para isso. Sabemos aonde chegará processo e deixamos transcorrer a nossa destruição. Uma vingança contra uma noção diminuída do que nos tornamos. Merecemos o castigo. Nos castigamos: por não termos nos superado; por não sermos melhores do que somos; por não merecermos o amor alheio.
Querem um final consolador? Não, não o terão (não agora). Há certos vazios, em certos momentos da vida, que são constitutivos do que somos...

Fevereiro 22, 2011

SEM-LUGAR> Os sem-lugar


Só quem abandona seu lugar pode saber das estreitezas dele,
Saber o quanto os hábitos locais e suas crenças são responsáveis por emperrar seu crescimento,
Somos acometidos por uma lucidez de quem olha de fora e em relação a outros lugares e pessoas,
Mas, simultaneamente nós, como “estrangeiros-locais”, somos aqueles que podem fazer com que os que ficaram vejam as belezas e singularidades que também só a comparação com outros lugares pode oferecer,
Hoje sei: comparar é o único caminho para saber,
Um saber que cobra também seu pedágio, pois
Sair do nosso lugar nos torna sem-lugar (parafraseando os não-lugares de Marc-Augé).
A volta nos parece, desde então, estreita e acolhedora.
Familiar nos lugares e incômoda nos hábitos.
As pessoas nos reconhecem, mas nos sentimos outros...
Como uma foto em preto e branco com uma legenda que nos identifique, sem saber das cores que adquirimos no caminho
Essa lucidez é uma avaliação que ressignifica não só o local, mas a nossa própria condição.
Uma condição meio boa, meio ruim
De liberdade e de desassossego,
De lucidez mental e solidão espacial,
Eis o risco de sair: crescer e ser sem-lugar.
Eis o risco de ficar: parar e se contentar.

Janeiro 31, 2011

HUMILDADE> A humildade é um entrave


A humildade nunca me convenceu. Há uma falsidade que se esconde neste tão propagando ato “virtuoso”. Nesse esforço de nos diminuirmos, de não nos acharmos tão bons, de tentarmos nos convencer de que somos menos do que somos... Há por trás dessa “educação da humildade” uma herança cristã que naturalizou o sentimento de conformidade e revolta. Ela nos ensina que os pobres e os humildes são virtuosos e que merecem nossa compaixão e nos fez ver, contrariamente, que os ricos e bem sucedidos merecem nossa desconfiança e rancor.
Uma habilidosa maneira de nos conformar com nossa infelicidade. De nos mantermos passivos diante do nosso infortúnio. Aceitá-lo como uma virtude. O protestantismo, de alguma forma, foi uma reação a isso, uma tentativa de justificar a riqueza de uma nova classe emergente, a burguesia capitalista, como bem o descreveu Weber. Para os reformadores dos princípios cristãos ser rico era um sinal de ser o escolhido por Deus, invertendo a lógica cristã e conferindo, assim, legitimidade a paz para a consciência burguesa. Porque para ser feliz e estar de bem com as suas conquistas é preciso, sim, da aprovação dos que estão a nossa volta. Essa máxima “não me importo com que os outros vão pensar” deve valer apenas para monges budistas confinados em mosteiros. Do contrário, todos nós, sem exceção, desejamos e precisamos de um certo apoio dos que nos cercam. Caso esse apoio não se dê no seio da família, como acontece com a maioria dos homossexuais, por exemplo, seria a busca de grupos de pessoas afins e locais em que a homossexualidade é aceita. Sempre buscamos uma zona de aceitação e ela é necessária para o nosso sentido de valor pessoal.
Mas, voltando a humildade, ela é uma castração de nossas forças. É um esforço contra-produtivo de minarmos nossa energia criativa. Os homens e mulheres que fizeram a diferença na História, que criaram, observem, tinham um quê de arrogância. De um “arrogar-se” um poder, de acreditar em sua potência, em seu sonho. A sua falta de modéstia foi a mola propulsora para tornar o impossível, possível.
No entanto, recair em uma defesa da arrogância me parece igualmente perigoso. Confesso que o desconforto é com a palavra e seu sentido social tão arraigado, difícil de ser “transmutado” dos valores a ela associados _ como bem o sabia Nietzsche (vítima que foi da incompreensão de seu esforço de dar um sentido novo a ideias desgastadas). É nesse sentido que ele afirmava que “ser sincero, mesmo no mal, vale mais que perder-se a si próprio na moralidade da tradição” (Gaia Ciência, p.109). É preciso ver no que se chamou de bem sempre um certo mal e no que se chamou mal um certo bem, sem usar para esse julgamento uma gramática conhecida.
Assim, o que defendo não é um acreditar em si que implique a humilhação alheia (tal como entendemos vulgarmente a arrogância). Não é preciso, para se achar bom, ter de diminuir o outro. Todos somos incomparáveis e isso elimina o sentido e a necessidade da arrogância entendida como denegrir os demais.
Mas, insisto: não se esforcem para diminuir-se. Esforcem-se em elevar-se. Em superar-se, com ética, com amor a si e as suas realizações. Usem todo o potencial que há em si para criar e assim contribuir para o mundo. No fim, uma dose de “arrogância” como criação é a maior prova de generosidade com a humanidade.
“Pois é amando que o mortal dá o que tem de melhor” (Nietzsche, Humano, demasiado humano, p. 184)

Janeiro 19, 2011

SOLIDARIEDADE E ALEGRIA > A falta de solidariedade na alegria


Porque as pessoas são solidárias apenas durante as tragédias? Porque é tão difícil compartilhar também a alegria e as conquistas do outro? Segundo uma personagem do livro "Inveja" do jornalista Zuenir Ventura, Vera Loyola: "O verdadeiro amigo não é o que é solidário na desgraça, mas o que suporta o seu sucesso".
Não quero que pensem que afirmação vai contra a generosidade na tragédia. Entendo, inclusive, que esta solidariedade é o fundamento da reconstrução material e moral não só das famílias que perdem tudo em tragédias naturais, mas do próprio país.
O que não elimina a pergunta: Porque a solidariedade na alegria é tão rara? Porque somos acometidos por essa "tristeza de ver o outro feliz" (como bem a definiu São Francisco de Assis)
A experiência, infelizmente, confirma a suspeita. Eu, por exemplo, perdi mais amigos no momento que me estabilizei do que quando me encontrava em situações difíceis. E, o pior, os amigos se afastam sem dizer o por que. Outro mal desse pecado: o silêncio, a sua não confissão. Quem pode assumir que está triste porque o amigo está feliz? Melhor mesmo é sair de fininho, em silêncio. Nelson Rodrigues dizia que “há coisas que o sujeito não confessa nem ao padre, nem ao psicanalista e nem ao médium depois de morto”. A inveja deve ser o nosso primeiro segredo.
Assistia recentemente a uma partida de tênis pela TV. O número 1 jogando contra um tenista que acabava de machucar o joelho. O campeão não recebia nenhum aplauso, enquanto um ponto do jogador lastimado era motivo de palmas e gritos da platéia. Pensei: como deve ser solitário ser o número um. Ele fez tanto para chegar ali, mas agora não merece a solidariedade em seu sucesso. Por quê? Porque ele é o número um! Porque o outro, pobre coitado, está ali se matando na quadra para fazer um ponto.
Será que Oscar Wilde tinha razão ao afirmar que “a cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre”.
O que preferir: A mediocridade e aceitação do outro ou o sucesso e a solidão? A companhia ou sua realização pessoal?
“Meu irmão! Queres caminhar para a solidão? Queres procurar o caminho que conduz a ti mesmo? Detém-te um pouco e escuta-me. ‘Aquele que procura facilmente se perde a si mesmo. Todo partir para a solidão é culpa – assim fala o rebanho. E tu fizeste parte do rebanho durante muito tempo. A voz do rebanho continuará ressoando dentro de ti. Queres, porém, percorrer o caminho de tua tribulação, que é o caminho para ti mesmo? Mostra-me, então, teu direito e tua força para fazê-lo’” – Nietzsche, Assim falou Zaratustra

Dezembro 22, 2010

VALOR PRÓPRIO > Quem pode medir o nosso valor? Garantir ou não o nosso sucesso?


"A Onda" de Camille Claudel: três mulheres diante da força da onda, entre a possibilidade de superá-la ou sucumbir a sua violência


O que define o nosso valor? Como poderíamos saber se realmente somos bons naquilo que fazemos?
A nossa auto-avaliação é sempre suspeitosa. Ou nos achamos muito bons ou nos sentimos um fracasso total. E, no fundo, sabemos que nossa auto-avaliação é sempre “fantasiosa” e de nada nos vale se não passamos em um teste, se não aceitam o nosso trabalho, se perdemos a chance. A avaliação do outro pode nos impedir, parcialmente, de seguir a diante.
O outro é nossa referência, a mais cruel em alguns momentos. Pois o "não", o "você não", define, para nós, o nosso valor, ou a falta dele. A nossa invisibilidade, a chance negada de mostrar o que poderíamos vir a ser é a mais cruel interrupção da nossa potência. Precisamos de chances e, em alguns momentos, de que as pessoas apostem em nós.
Mas, se estou por um lado afirmando que o outro é o nosso espelho mais “real”, por outro lado gostaria de denunciar o perigo dessa referência de nosso próprio valor.
Há poucos dias me deparei com a história de Joanne Rowling, autora da ficção lida por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, o que a tornou a mulher mais rica da história da literatura com seu Harry Potter. Mas, esse é o final feliz de uma obra que foi rejeitada oito vezes, isso, 8 vezes por editoras. Nessa oitava negativa ela poderia ter pensado: essa história é fraca, um lixo e, o pior, poderia ter parado de escrever se sentindo uma escritora medíocre, ter desistido. Mas, ela não o fez. Tentou a nona vez: conseguiu. O resto da história nós sabemos, o êxito mundial. Esse passo adiante onde todos teriam desistido foi o que fez a diferença na vida dela e dos leitores que, sim, acreditaram nessa história e fizeram dela um sucesso. Eis o perigo: a avaliação de um pequeno grupo pode nos impedir de ter a oportunidade de ganhar visibilidade e com ela a correta avaliação do seu valor pelo público em geral. Por isso, quero afirmar: se você acredita no que faz, insista.
Não quero que essa frase recaia em um otimismo ingênuo e fácil. Porque sei que, entre esse passo adiante e a frustração que o antecede, há o silêncio no meio. A angústia e a terrível sensação de que estamos condenados a nossa própria mediocridade. Perdemos a força, a vontade, indiferentes ao frio e ao calor, a beleza ou a feiúra, o sem sentido, o cinismo, o niilismo fatigado. Entre o desânimo e o ânimo que faz esse passo existir, há a confusão de sentimentos e a revolta com os nossos limites. Há a sensação de que o outro é muito superior a nós, inalcançável. Há a cobrança de porque não fiz isso, não falei aquilo, estudei aquela outra coisa? Há sempre entre a perda de seu valor e esse passo um enorme abismo onde nos metemos. E, de onde é muito difícil arrumar energias para sair. Como essa energia surge? Não sei, mas ela surge como uma pequena chama de fé “sem religião” que consegue aquecer nossa alma por inteiro. Parte de uma pequena ação que nos “realma” aos poucos e definitivamente. E nos faz ter a paciência de catar os retalhos que sobraram de nós, de costurar esse remendo que nos tornamos depois de perdemos nosso valor próprio.
É preciso, contra todas as condições adversas, encontrar uma reconciliação consigo que nos reabilita para que possamos nos amar, mesmo que um pouquinho, eis a condição necessária para dar esse passo além, onde todos parariam.

Novembro 27, 2010

AMOR X ADMIRAÇÃO > O Amor não precisa da Admiração



O amor é em si mesmo. Não precisa de provas e de desempenhos para nascer. Ele simplesmente está. É intruso, íntimo, próximo dos nossos defeitos. Mas, indiferente as nossas sombras ele nos ilumina, por essa mesma razão. Ele acalma os nossos fantasmas porque os conhece, os ama! O amor ama. Integralmente. Totalmente, porque sabe do nosso pior. No amor a incoerência não é loucura. O vazio existe e é acolhido. Há sempre mais uma chance na generosidade de que é feita a sua matéria. Ele sabe que erramos, mesmo quando não queríamos errar. E, ao tornar o nosso pior conhecido e amado ele deixa de ser o pior aos nossos olhos. Passamos a nos amar igualmente. Grandes em nossa pequenez.
Admiração é o mirar a distância. Ela não nos conhece em nossos fundos, apenas em nossa fachada. Ela não sonda os porões, mas os salões floridos em dias de festa. A admiração tem hora marcada. É feita de desempenho e controle da encenação. Ela produz ídolos e espera deles a coerência dos discursos e a plasticidade na imagem. Atores que encenam o seu sucesso à distância, no palco. Para ser admirado há de se manter a distância... do que nos é humano, nesse nosso insano desejo de sermos deuses, perfeitos. O controle e o belo nos orientam, nos atormentam porque nós sabemos da "fraude", do déficit entre o que aparentamos ser e do que somos. Mas, se julgamos que sendo admirados seremos amados... ledo engano! O amor não está na perfeição: estética, ética ou laboral. O amor tem um quê de imperfeito, de desalinho...
Esse desalinho do amor... é libertador. Nos deixa ser. Afrouxa as expectativas que impomos a nós mesmos. Nos deixa errar. Falhar. E nos ama!? Nos ama simplesmente, sem razão, sem um sentido que caiba no sentido. Esse calor humano que não depende das luzes dos holofotes. Que não afasta, mas aproxima. Que não pede, mas é abundante. Que nada quer e tudo nos oferece.
Esse desalinho do amor... é libertador

Novembro 24, 2010

V Encontro dos Pós-graduandos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP


Apresento no V - EPOG ( V Encontro dos Pós-graduandos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, parte dos resultados da minha pesquisa. Irei tratar da "ESTEREOTIPIA E INDIVIDUALIDADE NAS IMAGENS FEMININAS: DA CONFORMIDADE COM AS IMAGENS TRADICIONAIS À AUTORIA NAS REDES INTERATIVAS"

O trabalho será apresentado na mesa "A representação de si e novas subjetividades" e conta ainda com:
>Leonardo de Barros Sasaki-\"A LENTÍSSIMA DECIFRAÇÃO DO MEDO E DOS SINAIS\": O MEDO EM AL BERTO
>Pedro Felipe de Andrade Mancini- O MITO DA \"SEGUNDA VIDA\": LIBERDADE E INDIVIDUALIDADE NO USO DE SECOND LIFE
>Stella Christina Schrijnemaekers- CAMADAS POPULARES E INDIVIDUALIZAÇÃO: UMA JUNÇÃO POSSÍVEL

O evento: dia 25/11 na USP na FFLCH, sala 111 de 10h às 13h

Outubro 23, 2010

JORNALISMO CULTURAL> Palestra: "Desafios do Jornalismo Cultural", Universidade Mackenzie, SP


Paulo-Brusky, Bienal 2010

Quais são os desafios atuais do Jornalismo Cultural _ quando a própria crise e transformação dos conceitos de arte e de cultura forçam, simultaneamente, a revisão do lugar e da função do jornalismo cultural. Esse foi o tema da palestra que ministrei para os alunos de jornalismo da Universidade Mackenzie, durante o “V Encontro de Comunicação e Letras”, no dia 20 de out. 2010. Tal palestra realizou-se através do convite de uma professora da instituição que passei a admirar muito pelo trabalho e pela pessoa que é, no sentido dos gestos de que é capaz: Cicélia Pincer.
Dentre os desafios do JN Cultural selecionei cinco:
1) Equilibrar a informação-serviço (agenda) com reflexividade contidas nos gêneros: crítica, crônica e resenha,
2) Entender a cultura como ação cultural, como experiência e interação (jogo) e não mais como produtos e objetos culturais ou com os artista isoladamente. Não é o papel do jornalista qualificar, gostar ou não das expressões culturais, mas compreender o jogo social que aciona essas expressões culturais, sujeitos e o contexto social. A ideia é compreender qual o sentido daquela expressão para aqueles sujeitos, inseridos naquele contexto? Assim, tanto o funck como a MPB podem ser pensadas dentro do jogo da cultura.
3) Tratar com seriedade os produtos da I.C (novelas, reality-shows, programas de auditório e etc) e as novas formas estéticas (moda, culinária e design). No país, as novelas, por exemplo, não merecem uma análise especializada, nem são alvo de uma crítica séria, confinando o seu tratamento a seção de fofocas. Mesmo que seja o gênero dramatúrgico que mais influi na cultura do país, promovendo debates e até mudando leis ou as criando, como no caso do Estatuto do Idoso, onde o maltrato a um casal de idosos em uma novela acionou a discussão no Congresso,
4) Ser simples, sem ser simplório (máxima de Tobias Peucer “que todos entendam e que os eruditos respeitem”); evitar textos herméticos (máxima Nietzsche “buraco raso esconde-se com águas escuras” (AFZ)
Esta palestra na Universidade Mackenzie foi um momento duplamente gratificante para mim. Primeiro por debater um assunto que me apaixona: o jornalismo. A narrativa mais complexa e mais simples que há. Complexa, porque transita em todos os universos do fazer e do pensar. Simples, porque tem de traduzir com a máxima simplicidade, comunicabilidade e atratividade a densidade do mundo. Surgem para isso personagens que corporificam os números das pesquisas, comparações que tornam inteligível o assunto, gráficos e imagens que ilustram e informam. Eis a mais bela profissão do mundo também para os jornalistas, como bem observou Gabriel Garcia Marques. Pois, dela usufruimos de toda a diversidade de pessoas e fatos. Os jornalistas ganham os movimentos da vida durante a cobertura, pulsam com ela.
A segunda razão da minha satisfação com a palestra foi a do reencontro com os alunos, da sala de aula, da troca. Desde que me formei, em 2001, nunca deixei de dar aulas. Cheguei até a dar aulas para colegas que haviam sido reprovados e me reencontraram já como professora (na ocasião substituí a professora de jornalismo econômico, Eleonora Bastos, a quem devo, com todo meu carinho e admiração, a primeira oportunidade de lecionar. Agora meu carinho dedica-se também ao ato generoso de coleguismo e se ouso dizer, de amizade, da professora Cicélia Pincer, que é, com toda razão, admirada e querida pelos alunos da Universidade Mackenzie). Desde então, esta minha vocação encontrou oportunidades de se expressar. Nunca parei de dar aula, passei em todos os concursos em que me testaram lecionando e tive dos meus alunos diversas provas de reconhecimento do meu trabalho, destaco a da primeira turma de jornalismo formada em 2005 da extinta Fadom, hoje Pitágoras, em que colocaram o nome da turma de “turma Isabelle Anchieta”, a placa comemorativa permanece na instituição.
Assim, não só essa alegria, mas muitas outras vividas com meus alunos fizeram da sala de aula o centro da minha vida, que me confere utilidade e valor. A aula está em meu DNA, é o espaço onde minha alma se reanima, ganha forças, cria. Meus textos, são o resultado das minhas aulas, nascem delas.
E, pela primeira vez, com minha mudança para SP em razão do doutorado na USP tive de deixar de lecionar. Imaginei, com ingenuidade, que o doutorado compensaria o que sentia dando aulas, que seria bom voltar a ser aluna. Mas, apesar de realmente viver hoje uma experiência de um conhecimento aprofundado, nada substitui o fato de ser professora.
Por isso, voltar a sala de aula só confirmou minha vocação, só aumentou a saudade do que eu sou, do que eu posso voltar a ser...
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