setembro 29, 2010

GILLES LIPOVETSKY > Alguém que se importa e que importa


Gilles Lipovetsky e Isabelle Anchieta
A vida tem mesmo lá suas geneosidades. E elas não sem propósito chegam por meio de uma pessoa. Alguém que se importa com você, com os rumos da sua vida, que pensa saídas para seus impasses. E que descobre, nas singularidades do seu desejo; as singularidades dessas saídas. Elas nem sempre são convencionais e não podem ser adquiridas em um livro de auto-ajuda na livraria da esquina, nem pagas nas consultas psiquiátricas, pois dependem de uma escuta atenta, de doação e de um sentido real de amizade. Esse amor fértil. Como se a terra que nos contém fosse removida, explorada por seu movimento, potencializando as propriedades adormecidas no solo. Por isso, é importante que alguém toque essa terra, a remova, a renove. Acredite em seu potencial e assim te devolva a vontade de mais....
Durante a semana que passei com Gilles Lipovetsky pude conhecer com mais intensidade o que é realmente ter alguém que se importa. Ao contrário de falar de sua obra, de suas palestras, projetos futuros, ele queria falar da minha tese, me indicar um livro, sentar e estudar. Me apresentar pessoas. Ou quando era momento de relaxar: fumar um cigarro no terraço, escutar bossa nova e falar da vida. Preocupado em me “orientar” de um modo global. Uma amizade desinteressada, no sentido negativo, mas interessada no sentido da troca humana, da relação (há ainda de se enfatizar isso, infelizmente, quando a amizade envolve um homem e uma mulher).
Ele sempre me diz: Isabelle vc é uma intelectual, tem vontade de conhecer, curiosidade, entusiasmo pelas ideias e está acima de tudo engajada em ter seu próprio caminho na academia. Você não será uma repetidora ou "discípula' de ninguém, porque quer criar. Nem todos os que estão na academia são assim, ele me garante. Brinca que não sou uma “mulher-Daslú” (que se satisfaz com a moda e a beleza), rs, nem vou me contentar com amizades tradicionais (como com algumas mulheres que tem filhos e que só sabem falar de crianças). Eu, realmente, quero mais das pessoas. Ele soube identificar isso em mim sem me censurar. Ao contrário, valorizando essa minha característica, este caminho mais difícil, solitário. Como é bom ter o apoio de alguém da envergadura dele para assumir plenamente minhas escolhas. Para saber e defender que minha trajetória pede a realização de uma obra.
A presença dele me deu também a clareza de que a natureza da felicidade é o outro. Do quanto é importante construir relações autênticas. Em suas palestras, quando as pessoas perguntam se o consumo pode nos dar felicidade, Gilles usa a definição do Rousseau. Segundo o suíço somos incompletos e é o outro que nos oferece as razões para vivermos as grandes dores e alegrias que experimentamos na vida. Para isso, basta lembrarmos de uma perda de alguém importante, ou um nascimento; um encontro amoroso e uma separação; um bar com amigos e o desencontro.... Por isso, a felicidade não está sob nosso domínio, não pode ser comprada em um shopping (mesmo que esse prazer seja legítimo). O inferno e o céu são os outros, nisso Sartre e Rousseau têm razão. E, por não sabemos os caminhos do outro, na medida que sempre nos escapam, a felicidade é um estado imprevisível, instável, frágil, mas intenso, humano.
A felicidade também está em ter um propósito. O meu, como sabem, está atrelado a minha pesquisa, o de tentar contribuir para a emancipação feminina, não mais por uma via feminista, mas humanista pensando, necessariamente, a relação entre homens e mulheres e entre mulheres.
Tenho consciência que fui pesquisar para entender as razões sociológicas desta fragilidade na relação entre nós e para que, quem sabe, possa contribuir com outras mulheres e homens. Ao fim, cheguei a conclusão: a da urgência na mudança da postura feminina sob pena de nos furtar a estabelecer relações verdadeiras e férteis como essa que experimentei. Nós jogamos fora a oportunidade humana da interação que poderia nos unir.
A busca obsessiva pela beleza (que cria um sistema cruel: egoísmo-inveja-frustração), pelo marido e a falta de profissionalismo são empecilhos a relações saudáveis entre mulheres.
>>Quando publicar o trabalho completo aviso , caso queiram ler...

9 comentários:

Claudio Diniz disse...

Muito interessante!
Parabens!

Milson Veloso disse...

Observações muito inteligentes, como sempre...
Sucesso Isabelle!

H. Rodrigues disse...

Belo texto, Isabelle!
Tenho certeza de que vc fará uma pesquisa magnífica no doutorado.
Fico feliz em ser seu colega de turma.
Beijo,
Herbert

Isabelle Anchieta disse...

Colega de turma e parceiro, não é?! Vamos torcer para a aprovação do artigo que escrevemos,
Tenho muita admiração por vc tb Herbert, por sua inteligência, erudição, clareza e segurança. Desde a leitura do seu trabalho a sua sempre amigável relação durante o semestre (e, depois dele, com o nosso artigo do trabalho final do Micelli),
Att,

Isabelle

Reflexão e Comunicação disse...

Parabéns sempre Belle! Sensata, clara e inteligente!

Élidy Fly disse...

Isabelle,

Eu gosto muito de falar ( rsrrs), mas confesso que diante de algumas reflexões que sua leitura me proprociona, fico acoada pelo silêncio que abriga "verdades", duras e cruas, doces e felizes, sobre essa humanidade que me provoca suas leituras...Sua leitura sempre resgata essa humanidade. E observo: ser humano não é tarefa fácil!

Um grande beijo. Como sinto falta de suas aulas!!!!!

Isabelle Anchieta disse...

Querida Élidy,
Emocionada. Eu é que perdi as palavras com a beleza e "humanidade" da sua reação, do seu texto.
Como me deu saudades das aulas, de nossas conversas depois delas, sempre engajadas e construtivas
Bjs

Juliana disse...

Bele minha irmã quanto orgulho de você, te amo muito. Eu li cada linha dos seus textos e você surpreende cada vez mais, você tem um talento incrível!

Poliana Alves disse...

O Post veio de encontro com dilemas que estou enfretando no momento, foi muito ler!
Um abraço e muito sucesso e felicidade pra vc!