maio 19, 2009

AMOR E COMUNICAÇÃO> Me dei conta do quanto o amor e a comunicação se combinam


Me dei conta do quanto o amor e a comunicação se combinam. Se há um e o outro falta, não há a possibilidade do encontro. Comunicar, aqui, não é transmitir um conteúdo, mas trocar. Pressupõe perder algo de si e ganhar algo do outro e vice-versa. Um campo de intercessão (como na matemática), onde algo se preserva, mas algo se perde, formando um terceiro plano, um plano comum. Para chegar nele é preciso perder-se para reencontrar-se nessa zona original, forjada por dois singulares. Constrõem um lócus único, temperado pelo entrelaçamento de duas histórias – reúnem-se ali vivências, pessoas, momentos e memórias. O amor é esse entre-lugar original.
No entanto, hoje as pessoas não querem comunicar, não aceitam perder algo de si para escutar e traduzir as singularidades do outro – por medo de colocarem em questão suas tão confortáveis verdades. Pois, sondar o outro é entrar em uma zona estrangeira, é aventurar-se em um território desconhecido. Muitos preferem confinar-se no conforto de suas supostas certezas a descobrir a dor e a delícia dessa terra encantada que o outro nos apresenta. As pessoas não querem trocar, querem apenas transmitir, unilateralmente, os seus desejos esperando que o outro se encaixe neles. Enunciam aos quatro ventos o que esperam de “uma mulher”, de “um homem”. Quanta bobagem! (se me permitem o desabafo). São essas abstrações simplórias - geralmente recheadas de preconceitos e idealizações sobre o que é uma "boa mulher" ou um "bom homem" - que reduzem a diversidade de todos singulares em generalizações unidimensionais, pobres! São pessoas que trazem uma roupa pronta e querem que o outro caiba naquelas medidas. Mas, o outro nunca cabe (e, que bom!). Porque o outro é sempre sem medida. Porque o outro escapa pelo chamado dos seus próprios desejos. Aprisioná-los é a forma mais rápida de matar o amor, a comunicação, o encontro.
Eis aqui uma exigência do amor: a comunicação. No que tem de entrega, troca e respeito ao desejo do outro.
Por isso, hoje me dei conta do quanto o amor e a comunicação se combinam....
E, como não poderia deixar de lembrar do meu amigo e interlocutor de minhas inquietações...
*
"Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?". Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas
construídas sobre a arte de conversar" (Nietzsche)
*

7 comentários:

Anônimo disse...

Querida Professora Isabelle,

Lindo o texto, conforme seu amigo e interlocutor germânico, nosso querido amigo e interlocutor tupiniquim, Rubem Alves, assim corroborou:

"Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada".
É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética."
Parabéns pelo texto.
Fiorentino Capone

Jefferson Delbem disse...

Olá Isabelle.

Adorei esse texto. Principalmente porque adoro falar sobre os dois assuntos que estão em questão, que na verdade acabam sendo um só. Acredito que a falta de comunicação e de tolerância são os maiores males do mundo, o que prejudica até o amor.

Esse trecho foi o que mais gostei: "Enunciam aos quatro ventos o que esperam de “uma mulher”, de “um homem”. Acho que a tal "alma gêmea" não existe, temos sim que aceitar as diferenças e ceder em prol do outro, e que esse pelo menos faça o mesmo.

Isabelle Anchieta disse...

Caro "Fiorentino",

A idéia de "nudez poética" é mesmo forte. Para ser capaz dela as palavras ou a comunicação devem mesmo se associar ao corpo.
Na vida precisamos passar por certas experiências reveladoras, não é mesmo? Hoje sei da importância da "arte de conversar" para o amor permanecer.

Att

Isabelle Anchieta disse...

Oi Jefferson,

Obrigado pelo comentário. Adorei ter destacado um trecho do texto e achei interessante sua interpretação. Realmente essa história de "alma gêmea"...se todos somos irremediavelmente diferentes.
A idéia é não mais ver na diferença uma barreira, mas uma aventura.

Att

Danizinha disse...

Querida Isabelle,
como sempre trazendo lindas reflexões pra o meu mundo !!Muito obrigada !!!

Bruna disse...

Querida e Sábia, professora!!!

Acho que depois de uma semana já posso tentar comentar... (Acho que ainda não, né?)rs.

Fico imaginando como uma pessoa pode ter tanta sensibilidade a ponto de transformá-la em arte...

Que texto mais lindo, verdadeiro e real!

Seus textos iluminam, encantam e me fazem refletir com o coração...

Um grande beijo, da sua aluna mais fã do mundo!!!

Bruna.

Ricardo Malagoli disse...

Eu nunca havia pensado em uma analogia semelhante; definitivamente, originalidade não é elemento raro em seus textos.

E pensando um pouco mais a respeito, talvez possamos dizer que, tal qual o amor na era pós-moderna -- o "amor líquido", como denomina Bauman --, a comunicação vive dias sombrios. Cada vez mais imediatista/passageira, sem aprofundamento algum e sem qualquer compromisso; a não ser, é claro, aquele que firmamos involuntariamente com o Deus Mercado.

É uma pena...