dezembro 31, 2011

GANÂNCIA> O que nos move: ganância, medo e preguiça?!



“Em geral somos movidos por ganância, preguiça ou medo. Estamos sempre em busca do meio mais lucrativo, mais fácil e seguro de fazer as coisas” afirma o arqueólogo e historiador Ian Morris. As palavras do historiador andam me atormentando. Ganância, medo e preguiça. Nenhuma delas parece ser digna de algo que gostaríamos de nos identificar. Mas, ao mesmo tempo fazem sentido, incomodam porque é difícil confessar sua presença. A mais  incômoda? A preguiça.
Minha maior inimiga. Me irrita como um parente chato do qual não podemos escapar, como uma cama boa,  uma comida que não conseguimos parar de comer,  um atraso a um compromisso importante. Desse estado meio bom, meio ruim. De evitar a vida. Esse estado lento, sonolento, de indiferença. De morte lenta...
Minha preguiça é letal,
 É quando paro de acreditar no jogo, nas minhas forças para entrar nele. Me pergunto sempre: Vou assistir a peça ou atuar nela?
Não sei se foram os efeitos colaterais da academia que produziram esses estados passageiros de niilismo em mim. O conhecimento nos apresenta as mazelas humanas, nos coloca em estado de alerta e desconfiança. O ceticismo e a desnaturalização fundamentam seus princípios. Eles podem nos levar à crítica, à consciência e à revolução, mas podem, colateralmente, desencantar o mundo a um ponto irremediável: o da indiferença, do niilismo. Como tenho medo desse sentimento...
O medo. Chegamos nele. De que temos medo? Um dia percebi que essa resposta determina em grande medida quem somos. Durante uma reportagem com meninos de rua tinha uma pauta: quais são os medos dos meninos que dão medo? As respostas eram um misto de medos reais misturados com fantasias infantis. “Tenho medo de quando todas as luzes se apagam. Alguém pode atirar em nós enquanto dormimos”, confessa R.M, de 10 anos. “Tenho medo de bicho venenoso, de gente eu não tenho medo não”, responde com gesto altivo J.C, de apenas nove anos. “Tenho medo de machucar alguém”, me surpreendeu profunda e definitivamente M.R de 18 anos. Já que o medo, em geral, é algo que nos escapa, que está fora, longe do nosso controle, como os acidentes, a violência e etc. Mas M.R me ofereceu, com aquela inesperada resposta, uma intrigante reflexão: o medo que deveríamos ter de nós mesmos, da história que construímos, das experiências pelas quais passamos, da forma que respondemos a elas e, especialmente, da influência daquilo que nos tornamos sobre os demais. Como afetemos os outros.
Como mais afetamos? Agindo ou nos omitindo? Uma mãe ausente e indiferente é pior que uma mãe presente da forma errada para seu filho? Ou mesmo nosso país: será que ele não é afetado por nossa indiferença política? Por nossa apatia diante da corrupção?
Nesse ponto concordo com a estranha afirmação do historiador ao dizer que a preguiça move o mundo. Move sim. O não fazer é um tipo ruim de fazer que as coisas aconteçam, uma forma de afetar os demais. Um amigo que desistiu de lutar, que deprime-se, nos afeta. Muito!
Por isso, dos sentimentos descritos pelo professor acho a ganância o preferível. Nada louvável, eu sei, já que sempre nos ensinaram que expressar nossa gana, nossa vontade de poder, de reconhecimento e sucesso é ruim. Sinônimos de vaidade e egoísmo.  Que bom que o Nietzsche me libertou desse pudor moral. Aprendi, como ele (e com minha mãe) que não devemos dissimular o que desejamos. Eu quero! De assumir os desejos de grandeza, de saber que esse desejo é legítimo, viável e que pode, sim, ser realizado para colaborar com os demais. Pois todas as criações apaixonadas, por mais que não tivessem o outro como objetivo,  acabaram contribuindo mais do que as ações que iniciam-se com razões supostamente altruístas.  Pois, o que nos move é essa paixão em criar, realizar. Santos Dumont, ao criar o avião, não poderia imaginar os seus usos. Ele queria voar, tinha paixão. Essa gana não reduz a solidariedade de sua criação. Pois se não fosse movido por esse “egoísmo” em se realizar sem restrições não teria tido as forças necessárias para levá-lo a cabo.    
Por isso, para 2012, desejo que as pessoas tenham menos preguiça, menos medo e que possam assumir sua “gana” pela vida de maneira legítima e apaixonada.

2 comentários:

José María Souza Costa disse...

CONVITE

Primeiro, eu vim ler o seu blogue.
Agora, estou lhe convidando a visitar o meu, e se possivel seguirmos juntos por eles. O meu blogue, é muito simples. Mas, leve e dinamico. Palpitamos sobre quase tudo, diversificamos as idéias. mas, o que vale mesmo, é a amizade que fizermos.

Estarei grato, esperando VOCÊ, lá.

Abraços do
http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

Anônimo disse...

Isabelle,
Excelente reflexão de final de ano e ótimo pedido para 2012! Vc me fez lembrar de uma frase de Nelson Rodrigues: "tenho medo da preguiça, muito mais que a ignorância". Ótimo 2012 pra vc!
Herbert Rodrigues