setembro 01, 2007

“Fazer de cada ação diária uma que, se pudéssemos, se repetiria eternamente”

Foto: Cristiano Mascaro

O “eterno retorno ético” de Nietzsche contra a “economia da salvação” de Marx e contra o “imperativo categórico” de Kant

A frase do título, dita pelo professor de Filosofia Oswlado Giacoia Júnior, dentro do ciclo de Conferência Mutações (30/08), resume a formulação nietzschiana sobre o “eterno retorno ético”. Trata-se da idéia de não mais responsabilizarmos ninguém por nossas ações, mas de assumir nossa própria vida, tomá-la nas mãos - sem os subterfúgios de crenças e valores morais socialmente dados. Assumí-la de tal forma, que poderíamos quere-la eternamente. Cada ato nosso seria desejado e feito com tal vontade, com tal querer, que desejaríamos sua repetição eterna. Essa é a grande responsabilidade para conosco: a de fazer de cada ato um que poderia ser eterno. Isso, para o professor de Giacoia “é mais importante do que qualquer imperativo categórico de Kant”. Imperativo, esse, que acreditava que cada ação nossa deveria ter um valor universal – o que, por fim, acaba por constituir uma ação moral e não ética - no sentido que a moral orienta-se por valores socialmente constituídos e a ética pela autodeterminação do sujeito. Nietzsche não é moral, diz-se até ser imoral (característica que, segundo ele, pertence aos espíritos livres). Imoral, para ele, no sentido de não se guiar por nenhuma crença, nenhum partido ou “valor superior” estabelecido pelo poder e pela sociedade. Trata-se de uma atitude de autodeterminação que nega qualquer “economia da salvação”, no sentido de uma crença em algo que nos conforta e proteje. Chama de "economia da salvação" um ideal que acredita em um “por vir”, uma promessa de salvação e de sentido para a vida em um futuro que nunca chega - o que não é apenas uma exclusividade da religião - mas, está presente na política e na economia. E é Marx o representante da cristalização desse ideal que é, ao contrário do que queria, um ideal alienante, no sentido em que faz crer que há uma ordem sistêmica e desigual (gerando um ódio maniqueísta e simplificador entre as diferenças e classes sociais) e promete algo para um "futuro revolucionário". Nietzsche, ao contrário tem uma postura existencial que renuncia a um consolo metafísico. Para ele, não resta outro plano de existência, além do plano da existência. E, isso, ao contrário de ser um fatalismo, é motivo de grande alegria e festa. Trata-se de perceber a beleza da vida, de tudo que nos cerca. Trata-se de tomar em suas mãos uma dimensão da finitude e da beleza insubordinada e trágica da existência. Sem medo e sem recuo. Não se seduzir nem pelo nojo e nem pela compaixão de si, do outro e da vida. Trata-se de assumir uma postura artística, pois só faz sentido viver se a vida for uma obra de arte em que, não poderíamos prescindir de uma só nota nessa sinfonia, mesmo a mais grave. E para finalizar o professor lembra uma bela frase do alemão que diz que os gregos descobriram a chave da vida, por serem “superficiais por profundidade”. E termina afirmando “ser superficial é muito sério, o resto é patifaria”. Genial!

2 comentários:

geisamara disse...

Oi Isabelle!

No livro, A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera fala sobre o "eterno retorno". Esse romance é pautado nas idéias de Nietzsche?

Beijos.
Saudades suas! Até parece que você mudou de planeta! (rs)

Geisa Mara

Isabelle Anchieta de Melo disse...

Perfeito Geisa! (para manter a regra seus comentários são sempre inteligentes e bem vindos). Milan Kundera era um nietzschiano. Todo seu livro traz os pressupostos da filosofia do alemão. O próprio título e a linha dorsal do livro é prova disso, afirma que "o fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital" (KUNDERA, p.11, 1985). Nietzsche, da mesma forma, afirmava, que: “A vida tornou-se-me leve, a mais leve, quando exigiu de mim o mais pesado” (NIETZSCHE, p.51, ECCE). Quanto ao eterno retorno, você tem toda a razão. Trata-se mesmo do eterno retorno de Nietzsche. E, Kundera, possui, ao meu ver, a mesma força filosófica e poética de Nietzsche, sendo seu romance um dos mais belos e consistentes de toda a literatura desse gênero. Em uma passagem sobre o eterno retorno Kundera afirma: " Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Que idéia atroz! No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza. Isso é o que fazia com que Nietzsche dissesse que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos. Se, o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas sobre esse pano de fundo, podem aparecer em toda a sua esplêndida leveza" (KUNDERA, p.10-11, 1985).

Instigante e lindo, não!?

Beijos,