novembro 27, 2010

AMOR X ADMIRAÇÃO > O Amor não precisa da Admiração



O amor é em si mesmo. Não precisa de provas e de desempenhos para nascer. Ele simplesmente está. É intruso, íntimo, próximo dos nossos defeitos. Mas, indiferente as nossas sombras ele nos ilumina, por essa mesma razão. Ele acalma os nossos fantasmas porque os conhece, os ama! O amor ama. Integralmente. Totalmente, porque sabe do nosso pior. No amor a incoerência não é loucura. O vazio existe e é acolhido. Há sempre mais uma chance na generosidade de que é feita a sua matéria. Ele sabe que erramos, mesmo quando não queríamos errar. E, ao tornar o nosso pior conhecido e amado ele deixa de ser o pior aos nossos olhos. Passamos a nos amar igualmente. Grandes em nossa pequenez.
Admiração é o mirar a distância. Ela não nos conhece em nossos fundos, apenas em nossa fachada. Ela não sonda os porões, mas os salões floridos em dias de festa. A admiração tem hora marcada. É feita de desempenho e controle da encenação. Ela produz ídolos e espera deles a coerência dos discursos e a plasticidade na imagem. Atores que encenam o seu sucesso à distância, no palco. Para ser admirado há de se manter a distância... do que nos é humano, nesse nosso insano desejo de sermos deuses, perfeitos. O controle e o belo nos orientam, nos atormentam porque nós sabemos da "fraude", do déficit entre o que aparentamos ser e do que somos. Mas, se julgamos que sendo admirados seremos amados... ledo engano! O amor não está na perfeição: estética, ética ou laboral. O amor tem um quê de imperfeito, de desalinho...
Esse desalinho do amor... é libertador. Nos deixa ser. Afrouxa as expectativas que impomos a nós mesmos. Nos deixa errar. Falhar. E nos ama!? Nos ama simplesmente, sem razão, sem um sentido que caiba no sentido. Esse calor humano que não depende das luzes dos holofotes. Que não afasta, mas aproxima. Que não pede, mas é abundante. Que nada quer e tudo nos oferece.
Esse desalinho do amor... é libertador

novembro 24, 2010

V Encontro dos Pós-graduandos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP


Apresento no V - EPOG ( V Encontro dos Pós-graduandos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, parte dos resultados da minha pesquisa. Irei tratar da "ESTEREOTIPIA E INDIVIDUALIDADE NAS IMAGENS FEMININAS: DA CONFORMIDADE COM AS IMAGENS TRADICIONAIS À AUTORIA NAS REDES INTERATIVAS"

O trabalho será apresentado na mesa "A representação de si e novas subjetividades" e conta ainda com:
>Leonardo de Barros Sasaki-\"A LENTÍSSIMA DECIFRAÇÃO DO MEDO E DOS SINAIS\": O MEDO EM AL BERTO
>Pedro Felipe de Andrade Mancini- O MITO DA \"SEGUNDA VIDA\": LIBERDADE E INDIVIDUALIDADE NO USO DE SECOND LIFE
>Stella Christina Schrijnemaekers- CAMADAS POPULARES E INDIVIDUALIZAÇÃO: UMA JUNÇÃO POSSÍVEL

O evento: dia 25/11 na USP na FFLCH, sala 111 de 10h às 13h

outubro 23, 2010

JORNALISMO CULTURAL> Palestra: "Desafios do Jornalismo Cultural", Universidade Mackenzie, SP


Paulo-Brusky, Bienal 2010

Quais são os desafios atuais do Jornalismo Cultural _ quando a própria crise e transformação dos conceitos de arte e de cultura forçam, simultaneamente, a revisão do lugar e da função do jornalismo cultural. Esse foi o tema da palestra que ministrei para os alunos de jornalismo da Universidade Mackenzie, durante o “V Encontro de Comunicação e Letras”, no dia 20 de out. 2010. Tal palestra realizou-se através do convite de uma professora da instituição que passei a admirar muito pelo trabalho e pela pessoa que é, no sentido dos gestos de que é capaz: Cicélia Pincer.
Dentre os desafios do JN Cultural selecionei cinco:
1) Equilibrar a informação-serviço (agenda) com reflexividade contidas nos gêneros: crítica, crônica e resenha,
2) Entender a cultura como ação cultural, como experiência e interação (jogo) e não mais como produtos e objetos culturais ou com os artista isoladamente. Não é o papel do jornalista qualificar, gostar ou não das expressões culturais, mas compreender o jogo social que aciona essas expressões culturais, sujeitos e o contexto social. A ideia é compreender qual o sentido daquela expressão para aqueles sujeitos, inseridos naquele contexto? Assim, tanto o funck como a MPB podem ser pensadas dentro do jogo da cultura.
3) Tratar com seriedade os produtos da I.C (novelas, reality-shows, programas de auditório e etc) e as novas formas estéticas (moda, culinária e design). No país, as novelas, por exemplo, não merecem uma análise especializada, nem são alvo de uma crítica séria, confinando o seu tratamento a seção de fofocas. Mesmo que seja o gênero dramatúrgico que mais influi na cultura do país, promovendo debates e até mudando leis ou as criando, como no caso do Estatuto do Idoso, onde o maltrato a um casal de idosos em uma novela acionou a discussão no Congresso,
4) Ser simples, sem ser simplório (máxima de Tobias Peucer “que todos entendam e que os eruditos respeitem”); evitar textos herméticos (máxima Nietzsche “buraco raso esconde-se com águas escuras” (AFZ)
Esta palestra na Universidade Mackenzie foi um momento duplamente gratificante para mim. Primeiro por debater um assunto que me apaixona: o jornalismo. A narrativa mais complexa e mais simples que há. Complexa, porque transita em todos os universos do fazer e do pensar. Simples, porque tem de traduzir com a máxima simplicidade, comunicabilidade e atratividade a densidade do mundo. Surgem para isso personagens que corporificam os números das pesquisas, comparações que tornam inteligível o assunto, gráficos e imagens que ilustram e informam. Eis a mais bela profissão do mundo também para os jornalistas, como bem observou Gabriel Garcia Marques. Pois, dela usufruimos de toda a diversidade de pessoas e fatos. Os jornalistas ganham os movimentos da vida durante a cobertura, pulsam com ela.
A segunda razão da minha satisfação com a palestra foi a do reencontro com os alunos, da sala de aula, da troca. Desde que me formei, em 2001, nunca deixei de dar aulas. Cheguei até a dar aulas para colegas que haviam sido reprovados e me reencontraram já como professora (na ocasião substituí a professora de jornalismo econômico, Eleonora Bastos, a quem devo, com todo meu carinho e admiração, a primeira oportunidade de lecionar. Agora meu carinho dedica-se também ao ato generoso de coleguismo e se ouso dizer, de amizade, da professora Cicélia Pincer, que é, com toda razão, admirada e querida pelos alunos da Universidade Mackenzie). Desde então, esta minha vocação encontrou oportunidades de se expressar. Nunca parei de dar aula, passei em todos os concursos em que me testaram lecionando e tive dos meus alunos diversas provas de reconhecimento do meu trabalho, destaco a da primeira turma de jornalismo formada em 2005 da extinta Fadom, hoje Pitágoras, em que colocaram o nome da turma de “turma Isabelle Anchieta”, a placa comemorativa permanece na instituição.
Assim, não só essa alegria, mas muitas outras vividas com meus alunos fizeram da sala de aula o centro da minha vida, que me confere utilidade e valor. A aula está em meu DNA, é o espaço onde minha alma se reanima, ganha forças, cria. Meus textos, são o resultado das minhas aulas, nascem delas.
E, pela primeira vez, com minha mudança para SP em razão do doutorado na USP tive de deixar de lecionar. Imaginei, com ingenuidade, que o doutorado compensaria o que sentia dando aulas, que seria bom voltar a ser aluna. Mas, apesar de realmente viver hoje uma experiência de um conhecimento aprofundado, nada substitui o fato de ser professora.
Por isso, voltar a sala de aula só confirmou minha vocação, só aumentou a saudade do que eu sou, do que eu posso voltar a ser...
Para ler sobre:

setembro 29, 2010

GILLES LIPOVETSKY > Alguém que se importa e que importa


Gilles Lipovetsky e Isabelle Anchieta
A vida tem mesmo lá suas geneosidades. E elas não sem propósito chegam por meio de uma pessoa. Alguém que se importa com você, com os rumos da sua vida, que pensa saídas para seus impasses. E que descobre, nas singularidades do seu desejo; as singularidades dessas saídas. Elas nem sempre são convencionais e não podem ser adquiridas em um livro de auto-ajuda na livraria da esquina, nem pagas nas consultas psiquiátricas, pois dependem de uma escuta atenta, de doação e de um sentido real de amizade. Esse amor fértil. Como se a terra que nos contém fosse removida, explorada por seu movimento, potencializando as propriedades adormecidas no solo. Por isso, é importante que alguém toque essa terra, a remova, a renove. Acredite em seu potencial e assim te devolva a vontade de mais....
Durante a semana que passei com Gilles Lipovetsky pude conhecer com mais intensidade o que é realmente ter alguém que se importa. Ao contrário de falar de sua obra, de suas palestras, projetos futuros, ele queria falar da minha tese, me indicar um livro, sentar e estudar. Me apresentar pessoas. Ou quando era momento de relaxar: fumar um cigarro no terraço, escutar bossa nova e falar da vida. Preocupado em me “orientar” de um modo global. Uma amizade desinteressada, no sentido negativo, mas interessada no sentido da troca humana, da relação (há ainda de se enfatizar isso, infelizmente, quando a amizade envolve um homem e uma mulher).
Ele sempre me diz: Isabelle vc é uma intelectual, tem vontade de conhecer, curiosidade, entusiasmo pelas ideias e está acima de tudo engajada em ter seu próprio caminho na academia. Você não será uma repetidora ou "discípula' de ninguém, porque quer criar. Nem todos os que estão na academia são assim, ele me garante. Brinca que não sou uma “mulher-Daslú” (que se satisfaz com a moda e a beleza), rs, nem vou me contentar com amizades tradicionais (como com algumas mulheres que tem filhos e que só sabem falar de crianças). Eu, realmente, quero mais das pessoas. Ele soube identificar isso em mim sem me censurar. Ao contrário, valorizando essa minha característica, este caminho mais difícil, solitário. Como é bom ter o apoio de alguém da envergadura dele para assumir plenamente minhas escolhas. Para saber e defender que minha trajetória pede a realização de uma obra.
A presença dele me deu também a clareza de que a natureza da felicidade é o outro. Do quanto é importante construir relações autênticas. Em suas palestras, quando as pessoas perguntam se o consumo pode nos dar felicidade, Gilles usa a definição do Rousseau. Segundo o suíço somos incompletos e é o outro que nos oferece as razões para vivermos as grandes dores e alegrias que experimentamos na vida. Para isso, basta lembrarmos de uma perda de alguém importante, ou um nascimento; um encontro amoroso e uma separação; um bar com amigos e o desencontro.... Por isso, a felicidade não está sob nosso domínio, não pode ser comprada em um shopping (mesmo que esse prazer seja legítimo). O inferno e o céu são os outros, nisso Sartre e Rousseau têm razão. E, por não sabemos os caminhos do outro, na medida que sempre nos escapam, a felicidade é um estado imprevisível, instável, frágil, mas intenso, humano.
A felicidade também está em ter um propósito. O meu, como sabem, está atrelado a minha pesquisa, o de tentar contribuir para a emancipação feminina, não mais por uma via feminista, mas humanista pensando, necessariamente, a relação entre homens e mulheres e entre mulheres.
Tenho consciência que fui pesquisar para entender as razões sociológicas desta fragilidade na relação entre nós e para que, quem sabe, possa contribuir com outras mulheres e homens. Ao fim, cheguei a conclusão: a da urgência na mudança da postura feminina sob pena de nos furtar a estabelecer relações verdadeiras e férteis como essa que experimentei. Nós jogamos fora a oportunidade humana da interação que poderia nos unir.
A busca obsessiva pela beleza (que cria um sistema cruel: egoísmo-inveja-frustração), pelo marido e a falta de profissionalismo são empecilhos a relações saudáveis entre mulheres.
>>Quando publicar o trabalho completo aviso , caso queiram ler...

agosto 14, 2010

OPORTUNIDADES> De repente acontece o tempo se mostrando, (...) e você começa a existir (Adélia Prado)


Eis que chega a oportunidade. Um teste para o qual fomos preparados durante o curso da vida. O teste acontece. Agora: a espera. Acredito que todos nós já passamos por isso. Um vestibular. Um teste para um emprego. A mudança de cidade. A espera de um telefonema...
Esse hiato. O intervalo, em que temos a impressão que a vida parou nesse ponto. Congelada: entre o sonho e a desilusão, oscilamos no terreno do nosso imaginário. Construímos e desfazemos o caminho. E, sem certezas, nos exaurimos no movimento circular, sem saída, dos nossos pensamentos, já cansados de ficcionalizar algo que nos escapa.
Estou vivendo isso. Aguardo uma resposta e confesso: este pode ser o mais ambicioso teste por que já passei. Desejei esse posto, sabendo que para ele deveria me preparar e criar a oportunidade. Por isso, eu e a vida fomos nos colocando pequenos testes, de várias naturezas, mas que objetivavam (conscientemente ou não) o ponto de maturação para essa oportunidade. Aconteceu. No dia do teste estava segura, fiz o que tinha de ser feito, me sentia pronta e entusiasmada, dois sinais de que era mesmo o momento dele. Agora; aguardo pela resposta que pode confirmar e iluminar toda a minha trajetória, as minhas escolhas.
Quando era adolescente lembro-me que sempre tinha um sonho, o mesmo. A minha mãe chegou a ficar preocupada com as repetições. Nele eu ficava sempre diante de dois caminhos em uma madrugada. Um asfaltado, sem ninguém, os postes de luz estavam acesos e havia pequenas casas de janelas fechadas, todos dormiam. O outro: uma mata fechada, escura. E: sempre, sempre, escolhia a mata. Na caminhada sentia os pés descalços sendo machucados pelos espinhos, o escuro, cada vez mais... Aterrorizante. Quando acordava sempre me cobrava por essa escolha, que julgava errada.
Engraçado lembrar disso, neste exato momento..., pois a minha vida confirmou o meu sonho e o ressignificou. Ao invés da profissão mais lucrativa (o Direito) escolhi a que me apaixonava: o Jornalismo. Ao invés do sucesso imediato que meu posto na TV me dava, escolhi uma formação cultural de médio, longo prazo – ingressei no mestrado e agora curso meu doutorado. Ao invés de receber favorecimentos, prefiro ser testada. Gosto de entrar pela porta da frente, do contrário; não entro. Sempre fui clara e gosto que assim o sejam comigo (apesar da desonestidade corrente, da qual fui vítima algumas vezes). Não sou ingênua a ponto de negar que a vida é feita de uma certa dose de "política" (no mal sentido), mas infelizmente (ou felizmente) não consigo mesmo compactuar com atitudes pouco éticas e desrespeitosas com os outros. Prefiro esperar uma nova oportunidade, mais digna. E, sempre, sempre, aliei a preparação com o prazer e entusiasmo de fazer o que acreditava. Deu certo, tem dado...
Um dia, em solidão, um pouco cansada de não ver os resultados aparecerem Nietzsche me salvou com a frase: “quem pega o atalho, perde o caminho”. Nisso entendi que só há um caminho que nos mobiliza, sair dele, querer os resultados antes, é perder-se, é não ter tido a perseverança de se preparar para o seu grande teste: que virá. Chegou para mim.
Aprendi, que a vida não é feita de descansos, é feita de luta. Uma luta que se traduz nessa infinita caminhada, desse nunca chegar. Sísifo. Por isso, é preciso ver no caminho o sentido da vida, porque não existe uma chegada, um fim.
Mas, paradoxalmente é preciso buscar, atravessar. Isso é o que nos preenche dos mais sublimes sentimentos e contradições. É nesse lugar do trapézio, nesse meio entre o céu e a terra, onde se encontra o sentido da vida. Esta aposta em atravessar a corda bamba entre os seus riscos sempre presentes de mover-se rumo ao fracasso ou ao sucesso. Nesse ponto, lembrei-me de dois trapezistas. Um de Kafka e outro de Nietzsche. Eles traduzem duas posturas que podemos tomar diante da consciência da falta de finalidade da vida. Um: a angustia niilista. O outro: a aposta na vida, no risco que ela implica, mesmo que sem uma finalidade acabada, eis o seu significado mais profundo...
Por Kafka...
Um trapezista se dá conta, subitamente, de que sua vida está por um triz: ´Viver assim, com uma só barra entre as mãos... É vida, isto?´. A existência de repente lhe parece estreita demais. O trapezista de Kafka, na sua exclamação apavorada tem a percepção vertiginosa que estamos por um fio, a suspeita crescente que esse pouco talvez não bastasse para prosseguir. Ao lado da certeza esvaída, a vida depauperada, o abismo escancarado, a quebra irreversível no fio do tempo e no contorno da alma.

Por Nietzsche... (em um diálogo entre o trapezista, que acaba de cair da corda, e Zaratustra)
BAILARINO: Há tempo eu sabia que o diabo me havia de derrubar.
ZARATUSTRA: Amigo – respondeu – palavra de honra que tudo que falas não existe, não há demônio, nem inferno. A tua alma ainda há de morrer mais depressa que o teu corpo; nada temas.
BAILARINO: Se dizes a verdade – respondeu - nada perco ao perder a vida. Não passo de uma besta que foi ensinada a dançar a poder de pancadas e de fome
ZARATUSTRA: Não fizestes do perigo o teu ofício, coisa que não é para se desprezar.
(NIETZSCHE, AFZ p.30, 2006)


julho 29, 2010

CRIANÇA X ADULTO > Não quero voltar a ser criança


Desse saudosismo, não compartilho. Nunca quis voltar a ser criança. Ao contrário, quando criança queria crescer e estava certa, ser adulta é a melhor experiência que a vida nos oferece. Pois, se ser criança é: não assumir a sua vida integralmente. Não poder andar sozinha. Não ser independente. Não poder sair de casa, sem avisar aonde vai. Não poder escolher seus amigos. Pensar só em si e em seus desejos imediatos, pouco se importando para os outros. Falar e fazer brincadeiras idiotas, sem sentido, sem finalidade. Não ter um trabalho que se ame, na busca obstinada por um objetivo maior, para si e para os outros.... Desculpem-me os saudosos. Não quero voltar a ser criança, nem tenho paciência para criancices de adultos e de crianças. Ser adulto é a forma mais aproximada de ser você mesmo. De assumir erros e usufruir dos seus acertos, das suas apostas. É o momento da vida onde mais nos aproximamos da liberdade. Quando vc começa a escolher suas próprias roupas (mesmo que dentro do leque que a moda nos oferece). A sua carreira e seu carro. Sua casa e, especialmente, é o momento de escolher sua nova família.
Diz o senso comum: ser jovem é bom, pois não há responsabilidades, contas a pagar e decisões a tomar. Bobagem. Isso também significa não ter as rédeas da vida, ser conduzido, acomodar-se enquanto o outro dirige. Há quem goste dessa posição, há quem perpetue esse suposto lugar cômodo de passageiro. Adultos infantilizados. Mulheres dependentes. Homens morando com suas mães. Filhos eternamente mimados. Povos que adoram seus ditadores.
Me perguntaram: mas não há nada na sua infância que tenha saudade? A primeira coisa que veio a minha cabeça foi andar a cavalo na fazenda, mas logo pensei: ainda ando a cavalo; melhor, galopo, tomei as rédeas e não mais estou na garupa dos meus pais. A sensação é de mais risco, claro, mas também de mais vida, da minha vida ali, mesmo que em risco. E é preciso assumir os riscos para assumir sua vida. Disso eu sei.
Como é bom ser adulta...
Quando se é adulto você pode conversar e refletir sobre a vida com autoridade, com inteligência e escolher com quem quer compartilhar isso. Interlocutores com quem podemos conversar toda uma noite, uma vida. Por outro lado, me aborreço rapidamente com a tagarelice infantil sem sentido. Ou das infinitas perguntas que, previsivelmente, levam a lugar nenhum. Há quem veja nelas um sentido filosófico. Pra falar a verdade prefiro as perguntas de Nietzsche, do que as bobagens infantis de, de onde vem a nuvem? Prefiro saber de onde vem a vontade de potência, sinceramente! Relações adultas são as mais imprevisíveis e instigantes para o nosso pensamento, para a nossa vida. Quero ser adulta, para escolher. Para saber do que gosto ou não, para mudar de opinião e assumir com serenidade as minhas incertezas (sem os dramas da adolescência).
Mesmo que essas escolhas adultas envolvam decisões difíceis, como afastar-se de alguém de sua família. De eleger amigos. De ir embora quando o papo ficar chato. De comprar um livro. Ler, (em silêncio). Ficar sozinha. Ou, se não quiser, convidar alguém. Desfrutar de uma vista, tomar um vinho. Quero ser adulta, inclusive, para poder pensar se fui injusta ou não e poder formular um sentido ou uma falta de sentido das minhas atitudes. Voltar atrás, se ainda der tempo. Ser adulto é um segundo nascimento. Não mais de uma criança. Mas, de alguém que pode tornar-se o que é: adulto.

julho 07, 2010

ALMA IMORAL> A Alma Imoral




Todos nós nos deparamos com lugares que se tornam estreitos em determinado momento. Estes lugares, que outrora serviram para o nosso desenvolvimento e crescimento, se tornam apertados e limitadores. Qual é o caminho então?

Não é voltar e se acomodar,

Não é lutar com o passado,

Não é desesperar-se

e muito menos esperar,

Mas, marchar.

Esse profundo ato de confiança em si e no processo da vida garante a passagem pelo vazio. O que não existia passa a existir e um novo lugar amplo se faz acessível


Editei e interpretei passagens do texto que pode ser lido na íntegra no livro "A Alma Imoral", de Nilton Bonder (Ed:Rocco, p. 46-51). Livro adaptado para o teatro pela atriz Clarice Niskier,


Nessa passagem o autor reinterpreta a saída do povo hebreu do Egito, guiados por Moisés...

junho 13, 2010

Alunos da Univ. Lusófona de Cabo Verde (África) repercutem artigo da professora

Alunos da Licenciatura em Ciências de Comunicação da Universidade Lusófona de Cabo Verde (África), que gerenciam o site Comunicare repercutiram, para a minha alegre surpresa, um dos meus artigos "A defesa de uma nova objetividade jornalística".
Abaixo o link:

http://comunicare2009.blogspot.com/2010/06/sobre-autora-de-defesa-de-uma-nova_07.html,

Desde já meus sinceros agradecimentos,

Att,

Isabelle Anchieta

maio 15, 2010

LIBERDADE E ESCOLHAS> Sobre a liberdade e o fracasso de estar diante dos caminhos possíveis


Poder escolher é a mais potente forma de liberdade, mas que carrega o peso da decisão, da escolha acertada. Por isso a juventude é a fase mais perturbadora de nossa existência e o momento de maior liberdade. É a fase onde acionamos com toda a força a nossa imaginação, quando desenhamos em nossa mente como seria seguir cada caminho possível. Trata-se de um momento onde estamos indeterminados, no sentido de que tudo pode ser. Tudo pode vir a ser. Há uma grande euforia e esperança nisso. Achamos que podemos ser ricos, que poderemos casar com uma pessoa ideal e etc.
No entanto, poucos falam do risco que é o de tentar manter esse estado de indeterminação para além do "timing" das escolhas. Sermos jovens eternamente. Muitos têm o feito ultimamente... Na dúvida de qual mulher escolher, desdobram-se em três. Na possibilidade de escolher entre morar sozinho e viajar o mundo, continuam na casa dos pais. Na dúvida de qual carreira seguir trancam o curso no meio do caminho para trabalhar em um setor medíocre. O que estou dizendo é: manter o estágio da indeterminação, na tentativa vã de manter a liberdade a ela associada é a maneira mais arriscada de condenar-se ao fracasso de não ter tido a coragem de apostar em um caminho. A aparente liberdade é, assim, uma grande derrota, porque você perde o “bonde”, o horário de sua saída. Imaginamos que podemos viajar todas as viagens, quando na verdade não é possível compatibilizar caminhos incompatíveis. É preciso não ver algo, para que outro se realize. É preciso escolher um trecho em detrimento de outro. Ao tentar compatibilizar todos os possíveis, eles tornam-se impossíveis. Do contrário nem um, nem outro se realizam. Viram imaginação, viram nada. Oscilar entre todos os caminhos, não se decidir é um perigo. Pois, ao manter a indeterminação você inviabiliza sua felicidade pessoal e social. Você inviabiliza a oportunidade de viver “uma” vida.
OBS> caso se interessem pelo tema sugiro que leiam “A educação sentimental” de Flaubert (literatura) ou a instigante análise sociológica de Pierre Bourdieu em "As regras da arte, gênese e estrutura do campo literário"

abril 25, 2010

Grace Kelly: uma imagem precisa e poética

Compartilho um das imagens que pesquiso. Ela, entre outras, são alvo de minha tese de doutoramento "O poder da imagem na construção do feminino". Nesta: Grace Kelly. Achado feliz!
Uma imagem com enquadramento preciso e poético, um desses raros instantes fotográficos que imortalizam-se em nossa coleção mental.

abril 12, 2010

A RUÍNA> O homem como ruína: a trágica dinâmica entre a criação e a destruição de nossas vidas


Criamos. Desejamos. Vencemos os limites e todas as forças da natureza. Planejamos. Construímos pontes. Atravessamos. Mas, somos defraudados. Desmoronam as casas. Decompõe-se o metal, a vegetação cresce em volta das paredes. A enxurrada leva nossas conquistas. Quem vence? Nossa vontade de planejar nosso destino ou a natureza? Quem vence? Nossos sonhos ou a frustração de um imprevisto que o Outro nos impõe, amargamente? Queremos, nem sempre podemos. Desejamos e frequentemente a realidade nos toma, nos sequestra os sonhos. Tinge de preto as cores do imaginário. Saímos de uma linda casa para habitar uma prisão. De uma linda vista, para o nada: uma parede. A vida às vezes é uma colisão entre a nossa vontade e a dela. Somos impotentes diante da altura de sua voz. Calamos. Deixamos ruir o que construímos impassíveis, aterrorizados.
“Na nossa alma as forças constrõem ininterruptamente. E, ininterruptamente elas são quebradas, desviadas, rebaixadas pelas outras forças que atuam em nós” (SIMMEL, p.). A alma nunca alcança a vitória decisiva. Mas, “o ritmo inquieto da alma não admite o estado definitivo” da destruição. Cria, cria, desesperadamente, pois não pode admitir que a natureza nos tome, nos aniquile. Do contrário seria suicidar-se em vida. Admitir passivamente a derrocada. Ver ruir a casa, sem tentar ao menos retirar os móveis, o álbum de fotos.
E é na ruína onde se manifesta a forma mais latente e gritante entre o que quer e o que não pode ser. E como um pedaço do que não é mais, a ruína integra-se ao ambiente. Uma espécie de vontade da natureza de contrariar a vontade humana e reintegrar, assim, o edifício a paisagem. Uma vingança a violação que a nossa vontade impõe a natureza. E, é na decomposição e no crescimento da vegetação que aos poucos a ruína une-se a paisagem e torna-se, assim, como uma árvore ou uma pedra mais um elemento do horizonte, ao contrário do que acontece com a cidade, com a vila e as casas que ficaram intactas e claramente distintas da paisagem. A natureza nos toma de assalto. Rouba-nos a vontade.
Essa é a trágica dinâmica da vida: entre o sonho e a desilusão, entre o planejamento e o imprevisto, entre a vontade do espírito e a força da natureza. Mas, o trágico não deve ser tomado como algo necessariamente ruim, como bem insistia Nietzsche em o “Nascimento da Tragédia”. Na sua origem, no teatro grego, o trágico referia-se sempre a um final imprevisto. Podia ser ruim, bom, inconcluso, como a vida. O trágico refere-se, assim, a pulsão da vida, a sua imprevisibilidade e nisso a sua força. Pois, em alguns momentos a mudança de rota que a vida nos impõe produz resultados ainda mais belos do que os que planejamos – e geralmente é isso que ocorre. Nesse resultado há, enfim, o casamento da nossa vontade com a natureza. Uma unicidade, um encontro de uma força estética única. Pois é na ruína, como símbolo e resultado do embate entre a “aspiração ao alto e a queda para baixo”, que se dá a reconciliação do homem com a natureza. A “volta para casa”. Observem como a ruína produz uma sensação de paz...Uma espécie de “harmonia misteriosa” que torna tudo mais belo, mais sentido, ou se preferirem, mais humano. Ao fim, o homem é uma ruína. Pois nele também está a natureza, e com ela a sua luta e sua reconciliação. Porque “o que constitui a sedução da ruína é que nela uma obra humana é afinal percebida como um produto da natureza” (Simmel)

março 26, 2010

COERÊNCIA E INCOERÊNCIA> O sentido da vida: entre a coerência e a incoerência








“O sentido de coerência lógica ou teleológica tem poder sobre os homens em todas as partes, mais do que qualquer outra força da cena histórica” (Max Weber, in:Considerações Intermediárias, p. 318).




Porque somos atraídos pela religião? Porque cremos, sem provas? O Deus católico, sem face, que exige a fé sem questionamentos! Ou, no outro extremo, no campo científico: porque nos importa tanto que uma pesquisa ateste algo como verdadeiro? Que legitime nossas escolhas? É comum dizer “mas, tem uma pesquisa que comprava o que estou dizendo...” Porque necessitamos de um sentido de vida para viver? Porque essa necessidade por uma coerência entre as nossas ações e sua finalidade ética?
Pois, mesmo os ricos, aparentemente tidos como os “felizes” precisam justificar sua felicidade, dar a ela um sentido. O movimento protestante, como bem comprovou Weber, nasce exatamente como uma tentativa da nova classe burguesa de ficar em paz com seu enriquecimento, de justificá-lo. Assim como os pobres, que precisam de uma explicação para suportar seu sofrimento, mesmo que seja a promessa de um paraíso após a morte. Assim, ou no "aqui agora", para os ricos: ou no "para além da vida" para os pobres, a existência precisa justificar-se, ter sentido, coerência.
É nesse sentido que tanto a religião, como a ciência são, ambas, formas de racionalizar o mundo, de dar a ele uma coerência, uma resposta. Temos de nos agarrar a algo, temos de acreditar que não é em vão a nossa existência.
Mas, há ainda outra posição, que não é nem a do cientista, nem a do crente. Qual seja? A do homem, mulher que assumiu a incoerência do mundo. Daquele que a princípio está consciente que na vida não há mais do que sentidos provisórios, históricos e repletos de valores e morais. Aquele que assumiu que não há verdade, não há sentido. Nem crente, nem cientista, mas um niilista. Um descrente. O cético.
E há nesse assumir a incoerência inerente a vida duas possíveis posturas. Uma é negar a vida, é tornar-se indiferente a tudo, é desistir dela. É o homem que percebeu que o campo ideológico domina toda a esfera da vida social e a conduz. O homem que se deu conta que tudo não passa de uma construção de um sentido para o mundo> tanto no campo religioso, como científico. Não há verdade, não há sentido último. E, por essa razão ele desiste de lutar uma luta vã. De ser mais um soldado de uma guerra que não é sua, travestida em um falso sentido comum, "patriótico". Desiste de participar do jogo e comete, assim, uma espécie de suicídio simbólico (o que Nietzsche denominou de niilista fatigado).
Mas, há ainda uma segunda postura, a mais interessante ao meu ver. Daquele que ao assumir a incoerência do mundo não tomou uma atitude desinteressada frente a ele. Ao contrário, percebeu as belezas da incoerência, as nuances e a complexidade de suas cores, ao contrário dos tons uniformes, homogêneos da coerência. Trata-se de um olhar apurado, que não precisa de bengalas religiosas e científicas para dar sentido a vida. A vida tem sentido em si mesma, em toda a sua incoerência, em tudo o que pode nos surpeender e oferecer. Niilista ativo: o legítimo afirmador da vida no que há de bom e de mal. Um afirmador da incoerência.

fevereiro 01, 2010

GENEROSIDADE DA VIDA> Sobre a generosidade da vida


O que torna a vida tão desejável é o fato de, no fundo, sabermos que" há mais tempo alegre do que triste" (Clarice Lispector). Todos, por mais que passemos momentos difíceis, acreditamos na generosidade da vida. É essa sensação feita de lembrança e esperança que nos mantém ávidos por estarmos vivos. De lembrança, porque felizmente, da infância até a adolescência, vivenciamos um conjunto de sensações boas nas experiências que tivemos. De uma simples brincadeira, uma amizade, um relacionamento, uma conquista... Todos temos guardados um álbum da nossa memória alegre. Por essa razão, sabemos o que a vida pode nos oferecer.

Mas, a generosidade também é feita de esperança. Por essa aposta sempre renovada no inesperado, no que pode acontecer e no que podemos vir a ser. Uma curiosidade com o fortuito e com o resultado da concretização da luta presente.

E, a vida _ me desculpem os pessimistas, os marxistas, os críticos de plantão das tragédias, os ressentidos, os amargurados _é, sim, generosa. Capaz, sempre, de nos fazer acreditar que há algo novo e melhor a frente, porque algo novo e feliz já nos aconteceu e porque continuamos a confiar na capacidade da vida em renovar-se, em ser de novo.

Mesmo após terremotos, tsunamis, governos corruptos, sistemas injustos e tudo o mais que nos assola, _ da natureza à crueldade humana_, há, sempre, essa força que quer transformar, mudar o estado das coisas. E, como formiguinhas humanas, desafiamos os desastres naturais e reconstruímos nossas vidas, mesmo quando isso parece improvável, impossível. Mas, nada é impossível. Já conseguimos voar, transportar imagens e sons pelo espaço e produzimos continuamente a vacina para as nossas doenças. Inventamos. Criamos e mesmo quando não havia esperança de que algo poderia acontecer, acontece!

Vivo hoje a chegada dessa generosidade, e como testemunha dela queria dizer: deseje, sonhe, acredite, faça, pois é muito provável que aconteça. Para isso, persista no sonho. Não pare antes, não siga conselhos desanimadores, não se canse da luta, não opte por estar cômodo e confortável em situações que lhe desvie do que quer. Não se contente com menos. Julgue-se merecedor do que deseja. Continue, sempre. Mesmo que isso exija, provisoriamente, um sacrifício e um desconforto. Vale a pena, porque a vida, da sua forma, da sua maneira, e no seu tempo, é generosa.

janeiro 20, 2010

SOLIDÃO > A solidão do artista


"- Engraçado. Eu canto em tantos lugares do mundo, para cinco mil, dez mil, quinze mil pessoas, e então elas dançam, algumas choram, aplaudem, vibram com a minha música. É como se fosse uma missa com emoções compartilhadas - mas depois todos vão embora e eu vou para o camarim sozinho. Depois eu vou sozinho para o hotel ou para a minha casa e me pergunto: para onde foram as pessoas". O depoimento, de um músico brasileiro é parte de uma crônica de Luiz Fernando Emediato. O tema: intrigante. A solidão do artista.
É uma solidão de um tipo muito especial que Milan Kundera já havia descrito em seu romance: a do "olhar do público"(ILS,p.271). Para isso a imagem do palco é perfeita> ali o artista está sob o olhar distante e invasivo da platéia. Muitos o observam, poucos o conhecem.
Por essa razão será sempre uma fraude. Pois atrás de toda a imagem pública e de sucesso há um fardo: o do défcit entre a expectativa do público sobre uma atuação linear e previsível e os limites e contradilções do ator social. Para manter sua imagem, frequentemente, esconde-se com medo de ser defraudado, desmascarado e porque não: humanizado. Adélia Prado aconselhou uma vez que: "o público nunca deveria aproximar-se ou conhecer seu escritor senão por meio de sua obra". Tal conselho deu-se durante uma palestra para poucos convidados, momento em que externalizava seu incômodo de estar ali, tão próxima dos seus leitores. Em um texto transforma sua vulnerabilidade em poesia: "A edilidade vai me ovacionar. No entanto, se me escavarem, nada encontraram. A não ser desejo, quase ingratidão" (Menina aprendiz)

janeiro 04, 2010

PERSISTÊNCIA> Mais uma vez


"Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, espera que o sol já vem...escuridão já vi pior, de enlouquecer gente sã, espera que o sol já vem. Tem gente que não sabe amar, tem gente enganado a gente, veja a nossa vida como está, mas eu sei que um dia a agente aprende , se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança" (Renato Russo)

Essa letra já fez sentido em minha vida uma vez e novamente o faz. Mas, agora ela ganhou uma leveza e uma compreensão que não possuia da primeira vez. Com essa constatação perecebo que estou mais forte. Pois, cada ruptura que passo em minha vida funciona como um rito necessário. Confio, como nunca, na generosidade da vida, mesmo quando estou diante de grandes perdas, ou melhor, é justamente nelas em que percebo sua maior grandeza. A vida nos afasta do que não nos serve mais. Há as vezes uma grande violência nisso, como se uma criança perdesse um dedo, amputado por uma porta. Desses sofrimentos que nos parecem inexplicáveis, cruéis demais para qualquer explicação, para qualquer consolo. A vida tem suas cruezas, mas são nelas em que estão as nossas grandes e fundamentais mudanças. Há um incômodo nisso, um luto, um distanciamento do mundo, como se assistíssemos chocados a nossa rotina e estranhessemos o repetir sem sentido de nossas vidas. É o para que! É o absurdo que nos bate a porta e nos faz questionar nossa vida em sua totalidade, em sua utilidade. Mas, hoje não tenho um tom choroso ao refletir sobre essas coisas. É leve, seguro.

Não que o fato não tenha me mobilizado (por isso escrevo), mas o que essa experiência me causou foi raiva, porque sinto que as pessoas estão perdendo valores preciosos. Não falo de valores morais, religiosos ou nada dessa ordem. Mas, de valores humanos, esses que não precisam de regras, normas, apenas de respeito, solidariedade, generosidade, ética e bom senso. As pessoas estão vulgares. Mesquinhas, economizando seus sentimentos e, com eles, a grandeza do que podem vir a ser através do efeito propagador da generosidade. Há pouca nobreza nas relações interpessoais e o que une uns aos outros é frágil demais para passar por qualquer prova, a mais banal prova de lealdade, amizade. Corrompem-se na primeira e mais leve curva, fracos! Fracos de caráter, fracos! Não consigo sequer sentir pena, dó, pois me provocam repulsa.
Por isso, a perda de hoje me deixou mais forte, mesmo que essa força se dê as custas de uma solidão, de um isolamento. Quem sabe o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen tenha razão quando sentenciou que o fim de homens e mulheres que decidiram ser fiéis a si é a solidão. Dizia ele, na peça "O Inimigo do Povo" que "o homem mais forte é o que está mais só".
Minha solidão pessoal, evidentemente, não é extrema, tenho clareza disso. Tenho ao meu lado pessoas nobres, dignas de minha admiração. Nelas sinto o ar mais puro, a mente mais livre, o corpo entregue em confiança, essa palavra: confiança, quero repetí-la mais uma vez na esperança que se fixe...esse sentimento tão raro, tão nobre de que poucos são capazes.

Hoje eu quero confiar, mais uma vez, na generosidade da vida, no que ela tem de destrutiva e renovadora. Incondicionalmente. Amor fati!

dezembro 16, 2009

Universidade Newton Paiva repercute aprovação da professora no Doutorado de Sociologia da USP


por Indhiara Souza

Isabelle Anchieta é jornalista e mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora no Centro Universitário Newton Paiva. Ela acaba de ser aprovada no doutorado da USP. Passou por seis etapas, de avaliação do currículo a prova de idioma. Enfrentou uma banca de cinco doutores para defender sua pesquisa “A Quarta Mulher”, conhecida e admirada por alunos e professores da Newton. Aqui ela fala desse desafio, que representa um novo momento em sua carreira.

Como foi passar pela banca dos professores da USP? Como conseguiu defender bem sua pesquisa?
Isabelle - Foi um grande desafio pra mim. Tenho desenvolvido a minha pesquisa há três anos e demorei um pouco para atingir certa maturidade para apresentá-la a um doutorado. A USP é muito rigorosa e é a maior nota do Brasil, o nível é internacional. Os doutores da banca foram duríssimos comigo, estudaram meu projeto, fizeram muitas críticas, mas na hora eu não quis recuar, quis defender o meu projeto, porque acredito muito nele. Disse que aquele não era apenas um projeto de doutorado, era projeto de vida.

Por que encara essa pesquisa como “projeto de vida”?
Esse projeto foi um encontro com uma questão central da minha vida. É isso que faz as pessoas terem ou não motivação. Pesquisei muito tempo coisas que não eram exatamente do meu interesse, porque eu sabia que eram do interesse das pessoas. Não parei para questionar o que eu queria. Mas num momento da minha vida, vi uma colega fazendo uma coisa que ela gostava e esse exemplo da vida dela foi importante para mim. Pensei em sondar e encontrar em mim uma coisa que fosse importante e a imagem sempre foi muito importante na minha vida. A imagem da mulher, especialmente, sempre me intrigou.

O que mais vai te deixar saudades na Newton Paiva?
A Newton Paiva foi, de todas as instituições em que trabalhei, a que mais me respeitou, a que mais valorizou meu trabalho. Vou enfrentar um desafio agora, porque estou migrando de área de conhecimento — sou do jornalismo e agora vou para a sociologia. Vou virar aluna de novo, estou adorando, mas fico triste em abandonar minhas aulas e deixar meus alunos aqui.

O que gostaria de falar aos alunos que ficam e que desejam ingressar na área de pesquisa, mestrado, doutorado...
A vida não é fácil, o conhecimento é a única coisa que ninguém pode te tirar. É uma escolha difícil, é uma estrada mais longa: tem que ter dedicação, saber pesar as coisas. Nunca deixei de ter o lazer, mas sempre coloquei as coisas na balança. Hoje os jovens querem realizar todos os prazeres agora, no imediatismo, e perdem a perseverança de construir uma vida sólida. É possível conciliar a vida social com os estudos, até porque estudo pode ser um grande prazer. Os livros construíram a minha vida, o conhecimento construiu minha história. É preciso ter certa obstinação, acreditar na gente e não deixar ninguém medir o nosso valor.

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dezembro 04, 2009

Professora é aprovada no Doutorado em Sociologa da USP para desenvolver sua pesquisa sobre as Imagens da Mulher


A cada dia me convenço que uma trajetória bem sucedida é o resultado da combinação entre nossos esforços em traçar um caminho e a abertura dele por algo que nos escapa. Nós: a Vida. Como um par que dança ritmado, em simbiose, uma música. Um só corpo. Alegres por perceberem que dois podem ser um. E nesse encontro tornam-se cada qual mais cientes de si. Eis o que sinto: sintonizada com a força e a beleza dos passos da vida. Passar no doutorado da USP em Sociologia foi o resultado dessa potente combinação. Dediquei-me durante os últimos três anos a pesquisa sobre a imagem da mulher até julgar que tinha uma maturidade razoável para ingressar no doutorado. Foi um caminho bonito. Queria recuperá-lo aqui como um inventário. Espero que não seja cansativo para você, meu leitor, mas trata-se de uma memória afetiva necessária para mim neste momento. Conto com sua amizade para recuperar esses fatos e pessoas que fizeram parte dessa conquista. O primeiro passo foi à oportunidade dada por Alexandre Michalick da Academia de Idéias. Bati em sua porta, sem conhecê-lo, com um papelzinho com propostas de cursos que variavam entre o jornalismo e a imagem da mulher. Advinha o que ele escolheu... Em novembro de 2007 Alexandre me dava à oportunidade de lecionar o curso "O papel da publicidade na constituição da Terceira Mulher”. Tenho de destacar a importância de Alexandre. Ele foi o primeiro a acreditar em minha pesquisa e sempre abriu as portas dessa maravilhosa casa de idéias em BH que tanto deu visibilidade ao meu trabalho. Não vou me esquecer. Pesquisei para montar o curso e estava ainda concentrada na terceira imagem. O curso foi um sucesso. Fui instigada pelos participantes a pensar coisas que não havia problematizado e especialmente percebi o interesse de homens e mulheres sobre o assunto. Foi o início da percepção da relevância social da pesquisa para além do meu interesse pessoal sobre ela. Disso surgiram duas reportagens de veículos que se interessaram pela minha discussão. Primeiro fui capa do caderno de cultura do Hoje em Dia no dia 9 de nov. de 2007. Conduzida pela jornalista Elemara Duarte percebi, na entrevista, que havia mais uma imagem: a quarta mulher. Ela surgiu desse diálogo com Elemara quando senti a necessidade de mais uma categoria para explicar os fenômenos que estava descobrindo. Eureca! Em seguida o Estado de Minas me procurou e deu uma página no caderno Bem Viver sobre a minha pesquisa, intitulado “A Quarta Mulher”, publicado no dia 25 nov. 2007. Foi uma surpresa para mim. Uma página! Com charge, chamada na capa do caderno, foto, além de uma abordagem cuidadosa dada pela jornalista Márcia Maria Cruz (minha caloura no mestrado em comunicação da UFMG).

Nesse período a minha coordenadora de curso, a querida Cida, convidou-me para fechar o semestre com uma palestra privada para os professores. Foi super bacana poder dividir com os colegas meu trabalho. Uma oportunidade que a Cida me ofereceu, generosamente, de aproximar-me de colegas que não tinha, até então, muito contato. Um voto de confiança.

Quero relembrar com carinho também o apoio de colegas, professores, em substituições, para que pudesse me ausentar para cumprir as atividades atreladas a pesquisa (agradeço especialmente ao Marcelo, a Sônia, a Carla e ao Agnaldo "Isa 2", rs). Além, claro, da compreensão dos meus alunos, que sempre me apoiaram, acima de tudo.

Disso tomei coragem e me inscrevi em um Congresso Internacional, indicado por uma colega e amiga, Carla Mendonça (doutoranda em Moda pela UFMG). Me inscrevi com dois trabalhos: “A quarta mulher” e “Laboratório de Moda Brasil” projeto que deselvolvi com minha mãe a designer de moda Adrienne Rabelo (que foi adaptado para se tornar uma série para a TV). Para a minha surpresa os dois projetos foram selecionados. Apenas 10 pesquisadores do mundo foram escolhidos para a apresentação oral e estávamos entre eles. Um orgulho! Não tínhamos condições de viajar a Madri. Mas, como diz minha mãe “a vida não dá asas a cobra, mas dá condições de vôo” conseguimos que a FIEMG (Federação das Indústrias de Minas Gerais) patrocinasse a nossa ida depois de várias reuniões com a querida Fernanda Cotta que apostou em nosso potencial para representar o estado de MG no 1º Congresso Internacional de Moda e Cultura em Madri. Fomos. E lá o convidado especial era nada menos do que o filósofo Gilles Lipovetsky. Sua obra A Terceira Mulher, foi o ponto de partida da minha pesquisa e queria muito ter a oportunidade de entrar em contato com ele. Mas, nem nas minhas mais otimistas expectativas poderia prever o que aconteceria lá: tornamos-nos grandes amigos. Ele foi super acessível, simpático e discutimos longamente sobre a minha pesquisa durante os intervalos. Ele vinha nos chamar (eu e minha mãe) a todo o momento para lhe fazer companhia. Trocamos emails e iniciamos uma intensa interlocução sobre a pesquisa. Em junho mais um presente da vida. Lipovetsky foi convidado pela PUC MG e daria uma palestra em BH!! Acreditam? Ele veio, ficou hospedado na casa de minha mãe, não quis ficar em um Hotel. Foi ótimo e tenso (confesso). Tenso antes de chegar, com os preparativos para recebê-lo e maravilhoso após sua chegada. Ele é simples, humano e foi super generoso comigo. Lembro-me das manhãs na varandinha da casa de minha mãe, discutindo sobre a pesquisa, fumando um cigarro, tomando cerveja e escutando bossa-nova. Ele ficava horas no computador levantando os livros que deveria ler e me recebia pela manhã com a frase: a noite estive pensando sobre a sua pesquisa e... seguido de dicas e comentário. Foi especial! Me deu força, segurança. Estava falando de igual para “igual” com Gilles Lipovetsky. Pelo menos foi dessa maneira que ele se portou comigo. Chegávamos a discutir e discordar sobre vários assuntos. Ora ele cedia, ora eu. Uma delícia! Como devem ser as interlocuções na academia. Uma aula.

Disso vieram vários convites para dar entrevistas. Em cada uma tinha a sensação que estava sendo preparada para algo maior. Uma espécie de teste. Ora ao vivo em 5 minutos (com a querida jornalista Sandra Gomes na Rede Minas, que participou dos meus cursos), ora em uma hora de duração, sabatinada por três jornalistas, Beth Barra (Hoje em Dia), Jemelice Luz (da União Brasileira de Mulheres) na Sala de Imprensa da TV Assembléia, convidada pela produtora e eterna amiga Danielle Langsdorf. E, em um bate-papo super gostoso na Rádio Itatiaia, aproximando a pesquisa da vida cotidiana das mulheres no programa Observatório Feminino com Maria Cláudia Santos, Mônica Miranda e Kátia Pereira.

Neste ano, em abril, Alexandre, da Academia de Idéias, me convidou a repetir o curso e pediu que sugerisse um nome de peso para debater comigo o assunto. Logo pensei: Mônica Waldvogel. Ele ficou surpreendido, pois já havia iniciado um convite a ela para dar uma palestra. Ela aceitou. Leu minha pesquisa, foi uma honra para mim. Nos encontramos antes da palestra em um almoço privado que reunia grandes nomes mineiros entre mulheres e homens. A Mônica foi perfeita e também super generosa. Elogiou a pesquisa e a necessidade que esse conhecimento fosse ampliado para todas as mulheres. Um momento especial que se repetiu no curso. Sintonizamos. O debate foi rico. Me senti no sofá do Saia Justa, rs. Depois disso trocamos emails e iniciamos uma rica interlocução. Passado duas semanas, novo convite: mediar um debate com Maitê Proença que viria lançar seu livro em BH na AI. Fui. E, ao fim da palestra ela me surpreende contando a todos sobre a minha pesquisa (que a Mônica havia comentado).

Não demorou muito e recebi um email da produção do Saia Justa me convidando para dar uma entrevista sobre a pesquisa. Nossa!! Tive a perfeita consciência que as entrevistas anteriores me prepararam para esse momento. Uma entrevista em um canal nacional> GNT. Elas dedicaram todo o segundo bloco a minha pesquisa e a debateram com muita consideração e inteligência (só senti a Betty Lago não estar no dia).

Para consagrar o caminho da pesquisa fui convidada pelas coordenadoras Cida e Marialice, para abrir a Semana da Comunicação da Newton Paiva (pela manhã e noite com a minha pesquisa). Uma honra. No auditório tive, pela primeira vez, grata oportunidade de apresentar para meus alunos o trabalho. Foi especial. Emocionante, pois o público eram eles: meus queridos companheiros do conhecimento. Foi a minha mais forte exposição, de todas, a que mais me marcou.

Depois senti que era o ano do doutorado. Meu desejo: fazer a pesquisa na Sociologia, já que minha pesquisa estava muito inserida nesse campo de conhecimento. No entanto, tentei tb na Filosofia, por minha identificação com Nietzsche (passei na prova teórica, para a minha surpresa e fui reprovada em francês) tentei na Comunicação na UFMG e meu projeto foi rejeitado (para minha decepção, pois os professores da casa conheciam meu trabalho, o que muito me estranhou...) e, por fim, quando já estava cheia de receios e inseguranças ia me submeter à última e mais importante e rigorosa seleção, onde não conhecia nenhum dos professores: Sociologia da USP. Foram seis duras etapas: avaliação do currículo, avaliação da produção acadêmica (livros, artigos publicados e participação em Congressos), avaliação do projeto, língua (francês), banca com cinco doutores (que foram muito duros e me instigaram a defender minha pesquisa, me despiram e me exigiram autenticidade: adorei) e por fim, entrevista com a orientadora. Resultado: APROVADA!!! Nossa, percebem como a vida não me deu outra opção e conduziu a escolha atrelada ao meu desejo? Incrível! Me deu a coragem necessária em ter de tomar decisões difíceis que se seguem, mas que concorrem para o meu crescimento: parar de dar aula na Newton Paiva (uma instituição que guardarei com extremo carinho pelo respeito que tiveram comigo); abandonar o convívio com meus alunos, que tanto me reconhecem, me alimentam de vontade e me respeitam; abandonar BH e minhas Serras, ficar longe da família e dos amigos, e ir para SP começar essa instigante etapa de renovação e crescimento. Eu e a vida, dançando embaladas pela potente e emocionante música que tem como tema meu propósito de vida...Agora, no entanto, conto com um par, que tem dedicado toda a sua vida, o seu apoio e o amor necessário para que possa dançar essa música; meu noivo: Juan. Meu eterno companheiro que chegou em perfeita harmonia nesta dança, me ensinando os novos passos da "sustentável leveza do ser".

Por fim, quero dedicar meu respeito, carinho e amor a cada aluno, colega, amigo, familiar, pois eu não teria a força ética, a vontade e o desejo de ir em busca dos meus propósitos de vida se não estivesse revestida e motivada pela consideração, respeito e oportunidades que me ofereceram.

novembro 11, 2009

COMPETIÇÃO> O caso Geisy: falso moralismo encobre competição feminina


Isabelle Anchieta[1]
O caso da estudante de turismo que foi verbalmente agredida por mais de 700 estudantes por usar um vestido curto na Universidade Bandeirantes de São Paulo (Uniban) é emblemático. Mas, para além das inquietantes respostas levantadas pela imprensa e por especialistas para explicar um fato tão estranho (na medida que ocorre em pleno Brasil do sec. XXI) há uma questão que passou inadvertida pelas discussões da sociedade. Qual? O fato de mulheres, colegas de Geisy na faculdade, terem iniciado as ofensas contra ela. As mulheres?! Sei que o tema é delicado, pois parece desviar a responsabilidade dos homens e da ideologia patriarcal e aparentar uma tentativa de culpabilizar as suas vítimas: as mulheres. Apesar de não menosprezar a presença da cultura machista no caso, gostaria de chamar a atenção a esse importante elemento pouco tratado na mídia: a competição entre as mulheres, o rancor entre elas.
A filósofa Simone de Beauvoir já denunciava em 1949 em seu livro “O segundo Sexo” que esse era um dos grandes empecilhos ao desenvolvimento feminino. Assim, ao invés de vitimá-las, Beauvoir culpava também as mulheres como co-responsáveis por sua subordinação. Em um trecho ela diz “os proletários dizem nós, os negros dizem nós, as mulheres – salvo em certos congressos que permanecem manifestações abstratas – não dizem nós. Isso porque não têm, como os proletários, uma solidariedade de interesses” (BEAUVOIR, 1949, p.13). Mas, não queremos, em contrapartida, reduzir a discussão entre encontrar as vítimas e vilões – o que seria um erro. Vale ampliar a questão e nos perguntar até que ponto as mulheres não estão sendo conduzidas por um sistema cultural, típico do capitalismo, que incentiva a competição? Especialmente a competição marcada pela busca de ser “a mais bela”?
Os concursos para escolher a próxima Top Model multiplicam-se; as revistas insistem em ranquear a mais sexy, a mais popular, a mais bem vestida; os programas de TV selecionam “feias” e “mal vestidas” para transformar sua estética e, supostamente, sua vida. A magreza, a juventude e a moda embalam e alimentam essa cultura social que promove uma competição destrutiva entre as mulheres. Uma competição emburrecedora na medida em que é alicerçada em um pilar extremamente limitador para a emancipação feminina: a beleza (enquanto sua única alternativa de ascensão social). Criou-se no país, assim como é o futebol para os meninos, a idéia de que a única via do feminino é a beleza – ora através de uma carreira como manequim, ora através de um marido afortunado. É por essa razão que a beleza alheia incomoda, ameaça, na medida em que retira da concorrente a sua suposta “única” alternativa de ter seu lugar ao sol.
Geisy foi julgada por um falso moralismo que traveste uma outra questão fundamental: a competição feminina. Basta retomar o caso através do relato de uma testemunha, colega de classe de Geisy, para comprovar tal hipótese. Paola Cristina Fernandes conta como tudo começou: “Cerca de 18 a 20 meninas invadiram o banheiro (onde estava Geisy). Pensei que fossem bater nela. Elas estavam incomodadas com o tamanho do vestido e uma delas chegou a oferecer um short para que Geisy cobrisse as pernas”. Mas, como explicar os outros quase 700 alunos que se aglomeraram, posteriormente, para agredir verbalmente a estudante? Freud explica (sem ironias). Há um texto que merece ser lido na íntegra chamado “Psicologia das massas e análise do eu” em que Freud retoma a reflexão de Le Bon para defender que os indivíduos são contagiados pelos fenômenos de aglomeração, de massa, e tendem a ter um comportamento agressivo e uma coragem que não teriam se estivessem a sós. Basta ver uma torcida de futebol ou uma gangue para explicar isso.
Portanto, insisto em defender que a compreensão do polêmico acontecimento, que repercutiu internacionalmente, não pode ser reduzida ao machismo e a moralidade. E, esta última, convenhamos, é uma explicação fácil e hipócrita em se tratando do Brasil, onde as alunas frequentam as aulas com roupas muito parecidas. O modo de vestir está inerente a cultura ocidental e especialmente brasileira de exibição do corpo, da competição estética, como tento destacar. Ser bela continua a ser a maior obrigação feminina, patrocinada agora pelas campanhas publicitárias, pela moda e pelo consumo. Uma busca pelo corpo impecável, pela bolsa invejável, pelo cabelo que brilha mais do que o das outras. Um sistema que cria, via beleza, mecanismos de controle e competição extremamente limitadores da experiência humana da mulher enquanto ser humano capaz de múltiplas experiências e transcendências. Não que eu faça aqui um discurso anticapitalista, pois foi ele o único sistema que avançou efetivamente na ruptura do feminino com suas antigas coerções (religiosas e patriarcais) através dos valores laicos e pela consolidação do imaginário social igualitário-democrático que preza pela cultura da meritocracia (ou seja, se você for bom, não importa o sexo, a cor e a etnia, você pode ascender socialmente). Claro, que não chegamos a um nível de igualdade minimamente aceitável, segundo dados da Revista Exame (2009), das 100 maiores empresas no país nenhuma possui mulheres na presidência. Mas, é fato também que avançamos, tanto que a mídia cumpriu, no caso de Geisy um importante papel ao posicionar-se contra a violência sofrida pela estudante – independente do encantamento ou não de Geisy por sua visibilidade midiática. Isso não desqualifica o ato e a violência, isso não a desqualifica, como querem alguns poucos, na medida em que o acontecimento transcende uma discussão particularizada e revela um os atrasos na emancipação feminina no Brasil.
Desejo, por fim, fazer com que essa reflexão não seja apenas um “puxão de orelha” para as mulheres, mas um chamado a sua consciência. Essa delicada e difícil auto-reflexão que nos leva a desvendar tanto os nossos monstros e limites, quanto a nossa cumplicidade com o sistema cultural alienante que nosso momento histórico nos condiciona. Pois, não podemos nos furtar de não considerar que somos co-responsáveis por alimentar esse sistema, e que podemos, sempre, não compactuar com ele. Não somos seres determinados, alienados, dada a nossa capacidade humana, sempre renovada, de desviar o olhar, de não se tornar objeto, de nos emancipar e de recriar a nossa cultura. Pois, essa crueldade feminina reverte-se mais cedo ou mais tarde contra cada uma de nós. Termino, a nossa reflexão, com uma pequena historinha de Brecht:
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Ninguém se importou comigo.
(Bertolt Brecht, 1959)


[1] Isabelle Anchieta é jornalista e mestre pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em pesquisas sobre a mulher, suas imagens e imaginários, Isabelle desenvolveu a tese conhecida como “a quarta-mulher”. Recebeu prêmio nacional de Jornalismo pelo "Rumos Itaú Cultural" 2007/2008 como professora universitária. Tem dois livros publicados e artigos científicos internacionais e nacionais publicados em veículos como: Revista Mente e Cérebro (da Scientific American), Observatório da Imprensa; Comunique-se; jornal Estado de Minas; jornal Hoje em Dia entre outros. Como jornalista foi apresentadora e editora-chefe do Jornal da Rede Globo Minas e repórter de documentários pela Rede Minas.