Vivemos um momento particular: nos libertamos de um conjunto
de dogmas políticos, crenças religiosas, mitos científicos e literários e isso
não nos tornou melhores. Somos, sim, mais cínicos, mais críticos, mais
desinteressados: indiferentes. Porque não, preguiçosos! É a sociedade do “para
quê?” Do “tanto faz”, já que não há sentidos fortes para buscar. O mundo
torna-se uma fábula, “o sonhar, sabemos que se está a sonhar” (NIETZSCHE). No entanto, fizemos mau
uso dessa reflexividade potencial.
A vida possui, sim, sentido e as respostas, ao contrário
do que julgamos estão em aberto e precisam ser buscadas, assim como um
arqueólogo busca suas evidências _ mesmo que não possa reconstruir toda a peça.
Se desacreditarmos nessa busca a vida torna-se
uma falácia, um esforço desnecessário. Corremos o risco de adotar um ceticismo negativo. O que nos levaria a
improdutiva equação da crítica pela crítica. Um ponto final que instaura a
indiferença: o niilismo. A dúvida deve ser uma etapa de um ceticismo investigativo,
não o seu fim, sob pena de nos tornarmos apáticos e pouco engajados socialmente.
Pessoas que não acreditam no jogo são os cínicos negativos
contemporâneos, os que desistem antes de entrar na vida, de se arriscar.
Pena que poucos conheçam a proposta do filósofo e matemático
grego Sexto Empírico[1]
(sec. 2). Ele oferece uma via interessante: o ceticismo investigativo. Uma proposição filosófica que
simultaneamente se afasta dos que alegam ter encontrado a verdade _os estoicos,
Aristóteles, Epicuro, Platão; mas igualmente recusa o dogmatismo negativo, que
coloca tudo em dúvida _ Carnédeas, Citômaco e Descartes.
Uma postura que não duvida dos fenômenos, de
que as coisas acontecem, mas duvida daquilo que se afirma dogmaticamente como absolutamente
verdadeiro ou falso. Nessa via a busca pela realidade não é descartada, "mas
avaliada como algo de tal modo importante que não pode ser reduzida a uma só
explicação, a um só argumento". Trata-se da proposição de uma “filosofia
da investigação”, que nos lança sempre na busca de outras explicações, experiências: conhecimentos. Um horizonte para onde
caminhamos incansavelmente. Mas, nem por isso, o desacreditamos. Já
dizia, sabiamente, o escritor mineiro Guimarães Rosa que “o real não está nem
na saída, nem na chegada, está na travessia”.
Saber conferir a essa travessia um sentido ético
forte é o que impulsiona os passos, a caminhada. Há sim, razões em buscar o
conhecimento, os sentidos. Seria agora, parafraseando Descartes, um "penso, logo há sentidos a se buscar para a existência". A impossibilidade da totalidade não pode
impedir a motivação da aproximação com a complexidade da vida. Pois é no
inacabado que reside o horizonte, que nos leva a uma aventura excitante ao encontro de novas pessoas, novas culturas, novos conhecimentos. Pois, mais
saudável que a dúvida é cultivar a curiosidade.
por Isabelle Anchieta
[1] Para ler mais sobre o filósofo Sexto Empírico recomendo tb o arttigo: CONTE, Jaimir. “O início: Sexto Empírico e o ceticismo pirrônico”. In: Revista
Cult, ano 11, nº 121. Disponível:< http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/o-inicio-sexto-empirico-e-o-ceticismo-pirronico/>
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