junho 17, 2016

A irônica semântica da política nacional


Se uma figura de linguagem pudesse ser usada para definir a política no Brasil ela certamente seria a ironia. Aqui Ministros da Transparência são nomeados para obscurecer investigações da Justiça. A “defesa” da democracia é lema de simpatizantes de um partido sinônimo de atos “nada republicanos”. Sem falar no pleonasmo do “golpe” que conseguiu, pela redundância, significar que o desejo da maioria da população (e não de uma minoria) fosse compreendido como um atoantidemocrático. Mas, ninguém escapa a ironia. O líder da oposição _ que deveria ser a antítese do mal feito_ ao que tudo indica será “o primeiro a ser comido” pelo banquete antropofágico orquestrado pela Lava Jato. Eis que todas as afirmações são exatamente o contrário do que se pensa e dos fatos. Seriam ridículas, não fossem tomadas a sério por um grupo de pessoas que as repetem acriticamente.
(...) Mas, em meio a tantas ironias, alguém resolve falar sério. Dá real correspondência as palavras. A Lava Jato é a melhor antítese da política nacional. Delações premiadas, gravações de conversas privadas ofereceram o paradoxo que necessitávamos para romper a ironia. Escutamos pela primeira vez e com todas as palavras, os políticos dizerem (o que desconfiávamos que diziam), mas que nunca o fizeram em público. É a confissão dos crimes inconfessáveis. É o fim da hipocrisia. São as palavras ganhando o seu lugar. Crime é crime. Corrupção não é jeitinho. Propina e caixa dois dão cadeia. E, agora, bandido que rouba muito não vira mais Ministro, mas pode ir para a prisão.
Eis que a Lava Jato faz desse “ensurdecedor silencio” o mais delicioso emprego da palavra justiça engasgada há séculos na paciência nacional.



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http://brasil.estadao.com.br/blogs/tudo-em-debate/a-ironica-semantica-da-politica-nacional/

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